02/02/2026
Nossas memórias são subjetivas e não obedecem a um pensamento lógico-racional estruturado. Lembranças podem emergir à superfície ou consciência, fragmentadas e distorcidas.
Na série “Mentes Extraordinárias”, um médico neurologista incomum, Wolf, o protagonista do show, revisita suas memórias enquanto assume um novo cargo de trabalho no hospital da cidade de Nova Iorque.
No fim do episódio 5, vemos um exemplo muito interessante de como nossa memória conta a história que queremos ou suportamos acreditar, o que Freud teorizou como lembranças encobridoras.
Wolf se recorda da seguinte cena, estar sentado em um jardim com seu pai, onde ele lhe ensinava sobre as samambaias-da-ressurreição, plantas que sobrevivem a ambientes com pouca ou nenhuma água e conseguem ressuscitar, após o período de estiagem quando são regadas.
Contudo, a cena lembrada encobre a realidade, a verdadeira cena, recordada posteriormente pelo médico.
Naquele dia em questão o pai de Wolf sequer havia levantado do sofá, o médico suprime e desloca sua mãe da cena, que era quem estava com ele no jardim e lhe havia ensinado sobre resiliência e perseverança a momentos difíceis.
A deformação da memória revela a dificuldade do personagem em lidar com a verdadeira condição do seu pai herói, um médico deprimido afastado do trabalho por problemas de saúde mental, deixado pela mulher e filho, que na época escolheu a mãe como tutora e guardiã.
Colocar o pai no lugar da mãe na memória, reforçava o lugar do pai forte, acolhedor, asfaltava sua culpa por não ter escolhido morar com um pai que, na verdade, estava doente e precisava de cuidados e justificava a relação ruim com a mãe a quem ele destinava a responsabilidade pela separação.
Trabalhamos em análise com memórias, mas sabemos a importância de considerar a existência de uma realidade psíquica ao invés de uma realidade de fatos. O analista saberá conduzir a partir disso, e o analisante construirá a sua história menos alienado às construções fantasmáticas da infância.