10/12/2023
Sim, houve um tempo que o Louco que habita em mim respondia por nós! O brilho nos olhos era inegável e selava suas palavras com gestos livres e atitudes inesperadas! A alegria que ele fazia crescer em mim, bem como a bagunça no meu raciocínio ora deveras matemático, me fazia andar frequentemente a dois palmos do chão - não era questão de ignorar a Realidade, mas de não percebê-la como imutável... Ele, solto, inocente, não se cansava nunca! Mas entrava em cada situação... A bem da verdade, ele não entrava, o homem com seu lado bicho que constantemente ao se deparar com um Louco, o aliciava e abusava da sua capacidade de sempre acreditar mesmo que enganado centenas de vezes! Talvez ser louco seja também isso, acreditar independente das circunstâncias (e da experiência). Sua inocência vem de uma ingenuidade de diamante, não da esperança bambuzal que por mais firme que seja, ainda assim oscila nos vendavais das circunstâncias.... o Louco é tão louco que os que têm a oportunidade de conhecê-los confiam-lhes, não seus tesouros, mas suas alegrias! Ele transita sem credenciais pelo mundo, inclusive pelo submundo, e sua inocência não deprecia sua lealdade; parece que sua inocência inspira lealdade! Foi assim que tornou-se "emissário sem credenciais" para toda sorte de gente... O Louco não tem expectativas, mas também não tem esperança, acho que ele nem sabe o que essas palavras significam; em contrapartida, o Louco é alegre e faz da Vida um brinquedo sério e valioso. Ele não sabe qual caminho seguir, pois seu caminho não é uma ou duas ruas na dúvida de uma esquina, mas sim o mundo inteiro! Quem o observa tem a impressão que ele anda em zigue-zague, que está perdido... porém, ninguém como um Louco para apresentar o Mundo! Quando eu o escutava, ainda que também desprovido de rumo, não me preocupava com o sentido das coisas, mas com a alegria e o bem da Vida! Nós éramos livres, clandestinos sem causa ou razão maior além de degustar e reinventar o que já estava posto como definitivo. E fazíamos isso sem nenhuma revolução. Fazíamos pois era nossa forma de continuar. Pois Louco nunca desiste! E isso assusta alguns... Enquanto muitos insistem, ele transita pelo impossível! Enquanto alguns, que não são poucos, param no meio do caminho, ele não tem meio ou ponto de chegada, por isso desistir, para o Louco, não é questão de escolha ou falta de escolha, é desconhecido. Mas veio o encontro com a Realidade e com tudo e todos que com ela se entrelaçam. Vieram os compromissos que disseram que eram meus, as responsabilidades entregues a carimbo e ferro... E, principalmente, a ausência dos que amava, que partiram para outras terras deixando uma saudade insana e um vazio sem razão. Nesse momento eu me soltei do Louco e o tirei de minha cabeça, deixando-o que passeasse apenas por meu peito... Foram anos na matemática dos fatos à procura de soluções mirabolantes... De repente, o simples se perdera de mim e tudo se transformou em questões a se resolver! A leveza afundara nas contas feita a lápis a quebrar-lhe a ponta de tanto esforço por respostas que atendessem essa realidade que, não só me pegara de surpresa, mas me abordou sorrateiramente pelas costas! Não foram apenas anos, mas noites sem trégua e sem alívio - as novas regras apresentadas não respondiam às demandas! Seria isso que queriam?! Enlouquecer-me? Pois tudo que era dito de um jeito só era possível ao contrário! Isso quando era possível! E as resposta, às custas de longas noites sem dormir, quando apresentadas simplesmente eram engavetas sem sequer passarem os olhos! Não importa! Teimoso e uma vez Louco, desistir me era desconhecido e portanto não servia como saída, nem ao menos como alívio... Na exceção dos sonhos, quando dormir era possível, nós nos encontrávamos e eu ria. Aliás, ele sorria para mim... Meu peito estava uma bagunça, coisa de Louco! Telas pintadas, esboços de auto-retratos a carvão, poemas borrados escritos à pena e nanquim! Um descanso para meus olhos já numéricos... Com todo cuidado, tentava não sujar os pés sem perceber que o que estava a fazer era não destruir a Arte daquele Louco que por mais que não transitasse mais por minha mente, fizera do resto do meu corpo seu ateliê! Nos abraçamos, com a leveza de duas crianças e foi impossível não gargalhar ao olhar pro teto e encontrar tinta de quase todas as cores misturadas a manchas de carvão tatuadas por seus dedos sujos e respingos de nanquim... Sinto sua falta e busco alguma outra forma de estarmos juntos além dos sonhos onde todo homem deveria se perceber livre!