20/05/2026
Existe um fenômeno que muitas mães descrevem depois da gestação e do nascimento dos filhos: esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração, sensação de mente acelerada, desorganização e dificuldade para concluir tarefas simples. Não raramente, algumas chegam ao consultório dizendo: “acho que tenho TDAH”.
E, em alguns casos, realmente pode existir um transtorno que passou despercebido durante anos. Mas em muitos outros, o que aparece não é exatamente um TDAH, e sim um cérebro profundamente sobrecarregado tentando funcionar em estado constante de alerta.
A neurociência já demonstrou que a gestação e o puerpério provocam mudanças reais no cérebro feminino. Estudos publicados na Nature Neuroscience observaram alterações em áreas relacionadas à empatia, vínculo emocional e percepção social. O cérebro materno entra em um processo intenso de adaptação para responder às necessidades do bebê e às exigências do cuidado.
O problema é que essa transformação costuma vir acompanhada de privação de sono, exaustão física, sobrecarga mental, excesso de estímulos, interrupções constantes e uma pressão enorme para continuar funcionando normalmente. E um cérebro exausto pode apresentar sintomas muito parecidos com o TDAH: dificuldade de foco, lapsos de memória, irritabilidade, sensação de confusão mental e dificuldade de planejamento.
Isso não signif**a que a mãe esteja “inventando”, exagerando ou buscando desculpas. Signif**a que existe um sofrimento real acontecendo. Mas também é importante ter cuidado com diagnósticos rápidos. Nem toda mulher sobrecarregada tem TDAH. Às vezes, ela só está vivendo um nível tão alto de cansaço e demanda emocional que o cérebro começa a operar em modo de sobrevivência.
Vivemos um momento em que muitas experiências humanas têm sido rapidamente transformadas em diagnósticos, sem considerar contexto, rotina, maternidade, rede de apoio, saúde emocional e nível de exaustão. Por isso, olhar para essas mulheres com profundidade é fundamental. Porque antes de rotular, talvez seja preciso perguntar: essa mãe está adoecida por um transtorno ou esmagada pela sobrecarga de cuidar de tudo sozinha?
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