14/04/2026
Frances Tustin (1913-1994) destacou-se em sua trajetória ao enfatizar e entender a importância das experiências sensoriais nos pacientes autistas.
Segundo sua principal obra, “Barreiras autistas em pacientes neuróticos”, todos nós somos portadores de barreiras autistas constituídas por produções sensoriais do próprio corpo, que são organizadas como formas de apaziguamento diante do trauma. Tais manifestações, sejam por meio de elementos “duros” (objetos autistas) ou “moles” (formas autistas), estão armazenadas de modo filogenético na amígdala cerebral e podem ser reativadas em qualquer momento da vida diante de novas experiências traumáticas.
A ultrassonografia fetal confirma as observações de Tustin, já na vida intrauterina. O feto coça a orelha, a pele e os órgãos se***is, que certamente não estão a serviço do princípio do prazer e sim do autoapaziguamento. Caso haja acidentes de percurso, e aqui estamos considerando o trauma fetal, do parto ou perinatal, como um trauma físico, infeccioso, tóxico ou de outra natureza, haverá ativação das respostas citadas.
Nessa perspectiva, o autismo não se configura como falha de representação psíquica, mas como fenômeno que se apresenta como “coisa em si”, articulado à concomitantes biológicos e a registros sensoriais profundamente enraizados, inclusive desde a vida intrauterina. O papel dos sentidos, já ativos desde a embriogênese, surge como eixo organizador das primeiras formas de relação com o mundo.
Assim, considerar a dimensão sensorial no autismo é, portanto, condição para uma escuta que conduza ao diagnóstico do autismo. A terapia psicanalítica, com seu setting reservado e acolhedor, se apresenta como via possível para a redução da insegurança e para a retomada do desenvolvimento, permitindo que a cognição venha, progressivamente, ocupar o lugar antes dominado pelas barreiras autistas.