03/05/2026
Há algo no desejo de ser mãe que não se confunde com o desejo de ter um filho. Talvez porque a maternidade não se inaugure apenas no acontecimento concreto, mas em um movimento interno, íntimo, onde a mulher revisita sua própria história como filha. Como lembra Sigmund Freud, tornar-se mãe exige um retorno um acerto de contas silencioso com aquela que veio antes, com a mãe que se teve, com a mãe que faltou, com a mãe que se sonhou.
É desse lugar de filha que se esboça a mãe que se deseja ser. Uma construção que não é só biológica, mas simbólica, afetiva, atravessada por identif**ações, rupturas e escolhas. Ser mãe, então, pode acontecer antes, além ou mesmo sem o filho: acontece quando algo dentro se reorganiza, quando se cria um espaço de cuidado, de acolhimento, de responsabilidade pelo outro e por si.
E talvez seja esse mesmo movimento que sustenta os vínculos. Pensar o que se vai dizer com uma linguagem amorosa mantém a relação viva. Como na restauração de uma obra de arte, há um gesto delicado de preservação algo que cuida do que aparece, mas também respeita o que permanece oculto. Uma espécie de janela: revela e protege, embeleza e contém. E, quem sabe, o dentro seja tão bonito quanto o fora.
No fim, é com ternura que se ondula caminho. Porque é na ternura consigo, com a própria história, com o outro que algo pode continuar a existir sem se romper.
Imagem: Pietà de Michelangelo