02/03/2026
Inteligência Artificial não substitui profissional de saúde mental.
Eu entendo o encanto. Ter algo disponível vinte e quatro horas por dia, que responde rápido, que parece acolher, que organiza pensamentos… parece solução.
Mas sofrimento humano não é problema técnico.
Um ataque de pânico não é só um episódio isolado.
Uma crise de tristeza não é só um momento ruim.
Sintoma não é algo para silenciar. É algo para escutar.
Na clínica, a gente não trata apenas o episódio. A gente trata a história. A estrutura. Os padrões. O que se repete. O que dói desde sempre.
Psicanálise não é resposta pronta.
Não é conselho imediato.
Não é alívio sob demanda.
É laço.
É no encontro com o outro que algo se constrói. É na transferência. É na presença real de alguém que sustenta o silêncio, que percebe contradições, que escuta o que não está sendo dito.
Uma IA pode organizar informações.
Pode sugerir respiração.
Pode gerar frases coerentes.
Mas ela não assume responsabilidade ética.
Ela não sustenta processo.
Ela não acompanha a sua história.
E tem outro risco.
Nós já tentamos nos complementar o tempo todo. Com distração, com consumo, com excesso, com virtual. Sempre buscando algo que alivie rápido a dor de existir.
Se a tecnologia vira mais um objeto para tapar a falta, a gente para de trabalhar psiquicamente. Para de criar recursos internos. Para de se implicar.
A pessoa em desespero não precisa de algoritmo.
Precisa de cuidado.
Precisa de presença.
Precisa de vínculo.
Ferramentas podem até auxiliar. Mas não substituem tratamento. Não substituem processo. Não substituem responsabilidade.
Saúde mental não é aplicativo.
É trabalho.
E trabalho nenhum pode ser feito por você.
Verônica Valente