Psicanálise em Prosa e Verso

Psicanálise em Prosa e Verso DANIELLA SALGADO, psicanalista. "Felicidade como algo individual". Daniella Salgado, psicanalista, professora e enfermeira.

Chegando no lugar preferido do meu filho! ❤️  🌻
12/03/2026

Chegando no lugar preferido do meu filho! ❤️ 🌻

O mal-entendido, sob uma perspectiva psicanalítica, é inerente à condição do ser falante. Entre aquilo que se pensa dize...
12/03/2026

O mal-entendido, sob uma perspectiva psicanalítica, é inerente à condição do ser falante. Entre aquilo que se pensa dizer, aquilo que efetivamente se diz e aquilo que o outro escuta e compreende, abre-se sempre um intervalo.
Nesse percurso da palavra, algo inevitavelmente se perde, se desloca ou se transforma. A linguagem nunca coincide plenamente com a intenção de quem fala, tampouco com o sentido que o outro apreende.
Assim, toda comunicação carrega consigo uma margem de equívoco. Há sempre um resto — algo que escapa à significação plena, que não se deixa capturar inteiramente pela palavra e que permanece como enigma.
É nesse intervalo, entre o dito, o querer-dizer e o entendido, que o mal-entendido se instala como dimensão estrutural da fala humana.

Em Simone de Beauvoir, no: O Segundo S**o, encontramos uma frase que ainda ecoa com força: “Não se nasce mulher, torna-s...
08/03/2026

Em Simone de Beauvoir, no: O Segundo S**o, encontramos uma frase que ainda ecoa com força: “Não se nasce mulher, torna-se.” Beauvoir apontava que o feminino não é um destino biológico, mas uma construção social que atravessa expectativas, normas e desigualdades. Décadas depois, basta olhar alguns números p/ perceber que há muito a ser feito. No Brasil, mulheres ainda recebem menos que homens em funções equivalentes, concentram grande parte do trabalho doméstico não remunerado e seguem sendo as principais vítimas de violência doméstica e feminicídio. Em paralelo, há um roteiro simples para a felicidade: corpo perfeito, rotina produtiva, relacionamento bem administrado e a promessa de autonomia. Porém, muitas vezes ela vem embalada em novas exigências: a mulher contemporânea deve trabalhar, cuidar, amar, educar, empreender, envelhecer bem e, de preferência, sorrindo. Julgamentos às atitudes ainda se tem aos montes, sobretudo quando algo sai errado: ainda se escuta que se foi estuprada foi pq se colocou em risco, por exemplo. Mas afinal, o que é ser uma mulher? E o que quer uma mulher? Não existe uma essência feminina estável. Laca formulou o aforismo: “a Mulher não existe”, não como negação das mulheres, mas como crítica à ideia de um universal que as defina. Cada sujeito, marcado pela linguagem e pelo inconsciente, inventa sua própria forma de habitar essa posição. Talvez por isso o 08/03 seja sempre um pouco incômodo quando se tenta torná-lo apenas comemorativo. Porque, ao contrário do que sugerem os discursos mais fáceis, não se trata apenas de celebrar mulheres fortes ou inspiradoras. Trata-se também de olhar para as contradições: a idealização da mulher perfeita, a sobrecarga silenciosa, a violência que ainda atravessa tantas vidas, e a persistente tentativa de enquadrar o feminino em modelos confortáveis p/ o olhar social. Se há algo a marcar neste dia, talvez seja menos uma homenagem e mais um lembrete: a história das mulheres não cabe em cartões cor-de-rosa nem em slogans publicitários. Ela continua sendo escrita entre avanços, resistências e um permanente questionamento das formas pelas quais a sociedade tenta definir — e limitar — o que é ser mulher.

Hoje foi o lançamento do XXVI Encontro do Campo Freudiano. Saí dessa escuta tomada por um entusiasmo difícil de traduzir...
08/03/2026

Hoje foi o lançamento do XXVI Encontro do Campo Freudiano. Saí dessa escuta tomada por um entusiasmo difícil de traduzir. Há algo nesses encontros que recoloca a psicanálise no seu ponto mais vivo: entre impasses e paradoxos, entre aquilo que se pode dizer e aquilo que insiste como resto; dessa prática que se faz sem garantias, mas que ainda assim aposta! Nos barulhos DA língua, lalíngua e seus pedaços sonoros, somos lembrados de que o sujeito não nasce pronto: ele se constitui no tropeço da linguagem, talvez por isso quando um psicanalista, que muito admiro, disse: "somos todos bizarros" tenha reverberado em mim algo de novo, mas ao menos tempo de trivial — estamos sempre inventando uma forma singular de lidar com o real. Em meio a guerras, desventuras e imprevistos: haja gambiarra rs! Entre impasses clínicos — como o autismo que nos convoca às novas invenções, os discursos e os paradoxos do falasser, o encontro foi vibrante, inquieto, vivo! E em meio a te**es de microfone e vozes se preparando para falar, um pensamento atravessou minha cabeça, quase como um pequeno chiste: “alô, alô marciano, aqui quem fala é da Terra.” Que venha Floripa, a escuta, a escrita, as interpretaçoes e o encontro enfim. "Se não quis, quis."

“O que faz um povo dizimar outro?”Em O mal-estar na civilização, Sigmund Freud sustenta que a cultura se ergue à custa d...
05/03/2026

“O que faz um povo dizimar outro?”
Em O mal-estar na civilização, Sigmund Freud sustenta que a cultura se ergue à custa da renúncia pulsional, mas nunca consegue eliminar o resto agressivo que habita o humano. A civilização contém, mas não dissolve, a pulsão de morte. Quando os laços simbólicos se fragilizam, o outro pode deixar de ser semelhante e passar a encarnar o depósito daquilo que uma comunidade rejeita em si mesma. A violência, então, já não é acidente: é sintoma.
Ao atravessar essa leitura por Jacques Lacan, podemos dizer que o ódio ao outro frequentemente se estrutura como defesa contra o real da falta. O outro encarna o gozo enigmático — “o que ele quer de mim?” — e, nessa opacidade, torna-se ameaça. A segregação, que Lacan anteviu como marca crescente do laço social contemporâneo, não é apenas política; é estrutural. Quando o discurso dominante autoriza a desumanização, a eliminação pode aparecer como solução imaginária para restaurar uma unidade perdida.
No plano político, Achille Mbembe, em Necropolítica, radicaliza a questão ao afirmar que a soberania moderna se exerce como poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer. A necropolítica não é mero excesso; é tecnologia de governo. Quando crianças e uma professora são mortas por forças que deveriam proteger a vida, o que se revela é a lógica perversa que transforma corpos em alvos, vidas em cifras, e o luto em dano colateral.
Entre Freud e Mbembe, passando por Lacan, entrevemos um fio comum: a violência extrema não é exterior à civilização — ela pode ser produzida por ela. O genocídio não nasce apenas do ódio irracional, mas da conjunção entre pulsão, discurso e poder. Perguntar o que faz um povo dizimar outro é, portanto, interrogar o ponto em que a cultura falha em simbolizar a diferença e, em vez de reconhecer no outro um semelhante atravessado pela mesma falta, o transforma em objeto descartável.
Daniella Salgado

PS. A foto da outra postagem foi considerada adulterada. Nesta, coloco a fonte: . Texto meu: .psi

Inclusão é diferente de integração Não se trata apenas de estar junto, mas de pertencer e poder participar com suas sing...
04/03/2026

Inclusão é diferente de integração
Não se trata apenas de estar junto, mas de pertencer e poder participar com suas singularidades reconhecidas. A inclusão é um compromisso ético com a diversidade — não apenas físico, mas relacional e simbólico.

Uma pouco de fevereiro, esse mês tão 'abre-alas que eu quero passar'  sob várias aspectos e que foi tão corrido... Muito...
02/03/2026

Uma pouco de fevereiro, esse mês tão 'abre-alas que eu quero passar' sob várias aspectos e que foi tão corrido... Muito amor, encontros, reencontros, comemorações, começos, planos, projetos e vida! Adorei! 🌻🎉

“o eu não é senhor em sua própria morada” é uma formulação de Freud para sintetizar uma das teses mais radicais da psica...
27/02/2026

“o eu não é senhor em sua própria morada” é uma formulação de Freud para sintetizar uma das teses mais radicais da psicanálise: a de que a consciência não governa plenamente o sujeito.
Essa frase não é apenas descritiva; ela funda uma ética. Se o eu não é senhor, o trabalho analítico não é fortalecer um domínio ilusório, mas permitir que o sujeito reconheça sua divisão — que se responsabilize pelo que o determina mesmo sem saber.

A ética em psicanálise não se organiza a partir de um ideal de bem ou de adaptação do sujeito às normas sociais. Desde S...
27/02/2026

A ética em psicanálise não se organiza a partir de um ideal de bem ou de adaptação do sujeito às normas sociais. Desde Sigmund Freud, a clínica inaugura uma escuta que suspende o julgamento moral para acolher o inconsciente e seus efeitos. Contudo, é sobretudo com Jacques Lacan, no seminário O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise, que a ética ganha formulação precisa: trata-se de uma ética do desejo.

Para a psicanálise, a sexualidade humana não é regida por um instinto natural que garanta harmonia entre dois polos. Ela...
21/02/2026

Para a psicanálise, a sexualidade humana não é regida por um instinto natural que garanta harmonia entre dois polos. Ela é atravessada pela linguagem, pela falta e pelo desejo. Cada sujeito se relaciona não com o outro enquanto totalidade, mas com o seu próprio fantasma, com seus significantes e com o modo singular como se posiciona diante do gozo. Assim, não existe uma fórmula simbólica que escreva a relação entre “homem” e “mulher” como termos que se encaixam perfeitamente.
Ao dizer que “não há relação sexual”, Lacan indica que não há uma escrita que assegure essa complementaridade no inconsciente. O encontro entre os corpos pode ocorrer; o que não há é uma garantia simbólica que faça da diferença sexual uma relação de proporção. O amor, nesse contexto, surge como tentativa de suturar essa impossibilidade — “dar o que não se tem”, como ele também formula.

Olha o Carnaval aí, gente! Vamos inventar? Não tem cor certa, roupa certa, jeito certo; há corpo e vontade (de ir e/ou d...
17/02/2026

Olha o Carnaval aí, gente! Vamos inventar? Não tem cor certa, roupa certa, jeito certo; há corpo e vontade (de ir e/ou de ficar quietinha). 🎉 🌻 👏🏻 ❤️

Se, como propõe Sigmund Freud, a cultura se funda sobre a renúncia pulsional, o Carnaval encena justamente uma brecha nessa renúncia: fantasias, excessos, inversões de papéis e certa liberação dos interditos aparecem como expressão socialmente autorizada do que, no cotidiano, permanece recalcado. Já na perspectiva de Jacques Lacan, esse período evidencia a dimensão do gozo e do semblante: ao vestir uma fantasia, o sujeito joga com as identificações e revela que o eu é, em grande parte, uma construção imaginária sustentada por significantes.

Encontro de psicanalistas. Que encontro bom, , obrigada! 🌻..psicanalise
31/01/2026

Encontro de psicanalistas. Que encontro bom, , obrigada! 🌻..psicanalise

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