08/03/2026
Em Simone de Beauvoir, no: O Segundo S**o, encontramos uma frase que ainda ecoa com força: “Não se nasce mulher, torna-se.” Beauvoir apontava que o feminino não é um destino biológico, mas uma construção social que atravessa expectativas, normas e desigualdades. Décadas depois, basta olhar alguns números p/ perceber que há muito a ser feito. No Brasil, mulheres ainda recebem menos que homens em funções equivalentes, concentram grande parte do trabalho doméstico não remunerado e seguem sendo as principais vítimas de violência doméstica e feminicídio. Em paralelo, há um roteiro simples para a felicidade: corpo perfeito, rotina produtiva, relacionamento bem administrado e a promessa de autonomia. Porém, muitas vezes ela vem embalada em novas exigências: a mulher contemporânea deve trabalhar, cuidar, amar, educar, empreender, envelhecer bem e, de preferência, sorrindo. Julgamentos às atitudes ainda se tem aos montes, sobretudo quando algo sai errado: ainda se escuta que se foi estuprada foi pq se colocou em risco, por exemplo. Mas afinal, o que é ser uma mulher? E o que quer uma mulher? Não existe uma essência feminina estável. Laca formulou o aforismo: “a Mulher não existe”, não como negação das mulheres, mas como crítica à ideia de um universal que as defina. Cada sujeito, marcado pela linguagem e pelo inconsciente, inventa sua própria forma de habitar essa posição. Talvez por isso o 08/03 seja sempre um pouco incômodo quando se tenta torná-lo apenas comemorativo. Porque, ao contrário do que sugerem os discursos mais fáceis, não se trata apenas de celebrar mulheres fortes ou inspiradoras. Trata-se também de olhar para as contradições: a idealização da mulher perfeita, a sobrecarga silenciosa, a violência que ainda atravessa tantas vidas, e a persistente tentativa de enquadrar o feminino em modelos confortáveis p/ o olhar social. Se há algo a marcar neste dia, talvez seja menos uma homenagem e mais um lembrete: a história das mulheres não cabe em cartões cor-de-rosa nem em slogans publicitários. Ela continua sendo escrita entre avanços, resistências e um permanente questionamento das formas pelas quais a sociedade tenta definir — e limitar — o que é ser mulher.