28/01/2026
Orelha,
essa carta é para você,
mas também é para todos nós.
Você não era “apenas um cachorro em situação de rua”.
Você era presença.
Era afeto circulando livre.
Era cuidado coletivo.
Era prova viva de que uma comunidade pode amar sem possuir.
Você não pertencia a uma casa, pertencia ao encontro,
ao olhar atento,
à mão que oferecia comida,
à casinha improvisada,
à vacina paga em conjunto,
ao nome dito com carinho.
Você confiava.
E essa confiança nunca deveria ter sido uma sentença.
Nos últimos dias, o Brasil, e o mundo, assistiu estarrecido à violência que interrompeu sua vida. Uma violência que não é apenas contra um animal, mas contra tudo o que nos torna humanos: empatia, limite, responsabilidade e respeito à vida.
Como escreveu o poeta Fabrício Carpinejar, em um texto que ecoa o que muitos de nós sentimos:
“Orelha não morreu porque confiou demais.
Morreu porque topou com gente que deixou de ser gente há muito tempo.”
— Fabrício Carpinejar
Orelha, você acreditou no melhor das pessoas.
Você se aproximou esperando carinho.
Você abanou o rabo onde encontrou crueldade.
E isso não é fraqueza, isso é pureza.
A sua morte dói porque revela algo urgente:
falhamos enquanto sociedade quando normalizamos a violência, quando relativizamos o sofrimento animal, quando esquecemos que educação, empatia e cuidado também salvam vidas.
No Instituto Kênia Camargo, acreditamos que transformação social começa no reconhecimento do valor de toda vida.
A sua história não pode ser apenas mais uma notícia triste.
Ela precisa se tornar memória ativa, reflexão profunda e compromisso real com o bem-estar animal.
Que a sua ausência nos convoque à ação.
Que a sua história nos obrigue a olhar para nossas crianças, adolescentes, políticas públicas e valores.
Que a justiça não se ausente.
E que nenhum outro Orelha precise morrer para que aprendamos.
Você foi amado.
Você foi cuidado.
Você foi de todos.
E agora, Orelha,
você é também um símbolo.
Um chamado.
Um grito silencioso por humanidade.
Com respeito, indignação e amor,
Kênia Camargo