25/02/2026
(...) Se o medo estava em mim, ele era criatura de minha autoria. Logo, passível de outro signif**ado. Eu tinha que parar de me assustar, de me encolher e de fugir do medo. Embora fosse um personagem, o medo crescera pelos séculos e ganhara autonomia. Fingir que ele não existia ou negar a sua presença apenas o agigantava. Era preciso, em um primeiro momento, enfrentá-lo com sabedoria. A antítese do medo é a coragem. Ocorreu-me que para haver a coragem é preciso antes existir o medo; sem este não haverá aquela. O medo é a lagarta; a borboleta, a coragem. Isto, em seguida, me permitiu olhar e abraçar o medo com amor. Sim, o medo se alimenta da ausência do amor primordial, o amor por si e pela vida; portanto, eu poderia, através do amor, reinventar o medo como personagem, dar-lhe outro contexto e atuação em minha história e, assim, inverter as suas consequências funestas. Matar ou sufocar o medo seria um equívoco. Em um terceiro ato mostrei ao medo – ou, em essência, a mim mesmo – as possibilidades infinitas da luz. Eu disse ao medo que aceitaria os seus avisos face aos perigos iminentes do mundo, mas que isto jamais me paralisaria. Ao contrário, apenas serviria para me deixar atento e melhor preparado a cada dia. O medo não mais teria força para me esconder da vida nem me furtaria a alegria das manhãs. A partir daquele instante ele se tornaria um bom conselheiro cuja função seria me lembrar de aprimorar os meus dons ao invés de abandoná-los; de compartilhar com o mundo os meus melhores frutos ao invés de guardá-los comigo; e, acima de todas as coisas, de nunca me deixar desistir de seguir adiante. O medo me recordaria, todos os dias, que só f**a triste quem abdica dos sonhos. Naquele instante me tornei um hábil criador de mim mesmo, capaz de transmutar um perigoso inimigo ancestral em um valioso aliado contemporâneo.
📔A Caravana