18/01/2026
“All Her Fault” usa o suspense do desaparecimento de uma criança para encostar em algo que, para muitas mulheres, não é exceção, é regra: a culpa materna como resposta automática ao imprevisto. Quando algo sai do controle, o olhar não se volta para a falha do sistema, para a rede que não sustentou ou para a ausência de quem deveria compartilhar o cuidado. A pergunta que surge é quase sempre a mesma: onde ela errou?
Existe algo de profundamente psíquico nessa lógica. A maternidade é atravessada por uma exigência de completude impossível, como se a mãe devesse prever tudo, conter tudo, dar conta de tudo. Quando isso falha, porque sempre falha e a culpa aparece como se fosse prova de amor. Mas desde quando amar é não poder falhar?
A ausência paterna, seja física, emocional ou simbólica, raramente ocupa o centro dessa narrativa. Por que a falta do pai não produz o mesmo incômodo social que o “erro” da mãe? Por que o cuidado ainda é lido como responsabilidade feminina e a sobrecarga como uma obrigação silenciosa? O que sustenta esse pacto inconsciente em que mulheres acumulam funções e ainda se sentem culpadas por estarem cansadas?
A série prende pelo mistério, mas inquieta por outro motivo: escancara o quanto ainda esperamos que mulheres sustentem tudo, mesmo quando o custo psíquico é alto demais.
Até quando vamos chamar de amor aquilo que, na verdade, é sobrecarga?