04/01/2024
Salve 4 de janeiro, Dia Mundial do Braille
(Antônio Muniz)
Em 4 de janeiro, comemora-se o Dia Mundial do Braille. A data, que passou a ser
reconhecida a partir de 2018, foi instituída pela Assembleia Geral da
Organização das Nações Unidas - ONU, em homenagem ao nascimento de Louis
Braille, que aos 15 anos criou o sistema de escrita e leitura em relevo para as
pessoas cegas e/ou com baixa visão, conhecido por método Braille.
Esta celebração também relembra a importância de se assegurar formas de
incluir estas pessoas no acesso aos livros e também na escrita já que, segundo
a União Mundial de Cegos - UMC, apenas 5% dos livros em todo o mundo são
transcritos para o Braille. Esse número cai para 1% em países mais pobres.
Quem foi Louis Braille
Louis Braille foi um educador e inventor francês que criou um sistema de
leitura e escrita em relevo destinado a pessoas cegas e/ou com baixa visão. Ele
nasceu em 4 de janeiro de 1809 em Coupvray, uma pequena cidade perto de Paris,
e ficou cego aos três anos de idade após um acidente na oficina de seu pai, que
trabalhava manufaturando artefatos de couro.
Leitura e escrita
Louis Braille demonstrou grande inteligência e aptidão para os estudos,
especialmente para a música. Aos dez anos, obteve uma bolsa de estudos no Real
Instituto dos Jovens Cegos de Paris, a primeira escola para cegos do mundo.
Aprendeu a ler com os livros produzidos com base no sistema de Valentin Haüy,
que consistia em letras convencionais grandes em alto-relevo, dispostas em
folhas de latão. No entanto, esse método era limitado e não permitia a escrita
manual.
Em 1821, Braille conheceu Charles Barbier, um capitão reformado do exército
francês que havia desenvolvido um sistema de comunicação noturna baseado em
pontos em relevo, chamado de escrita noturna ou sonografia. Barbier desejava
adaptar seu sistema para a educação dos cegos, mas encontrou resistência dos
professores do instituto, que preferiam o método de Haüy.
Sistema Braille
Luís Braille ficou fascinado com a ideia de Barbier e começou a trabalhar na
simplificação e aperfeiçoamento de seu sistema. Reduziu o número de pontos de
cada símbolo, de doze para seis, organizados em duas colunas de três pontos
cada, e desenvolveu um código alfabético, numérico e musical.
A escrita braille é obtida, utilizando-se uma ferramenta chamada reglete,
espécie de régua com duas ou mais linhas, formada por duas peças metálicas ou
plásticas ligadas por uma dobradiça. A peça de cima contém diversos orifícios
no formato retangular, enquanto que a de baixo contém, além de alguns pinos,
diversas linhas, todas com orifícios correspondentes aos da primeira peça, só
que não vazados, no formato da cela Braille. Entre elas, é presa uma
folha de papel no formato 40 kg, onde, com o auxílio do punção, instrumento
pontiagudo, se perfura o papel, obtendo-se desta forma os símbolos em relevo.
Para ler, as pessoas cegas e/ou com baixa visão usam o tato, passando os dedos
sobre os pontos em relevo.
Em 1824, aos quinze anos, Louis Braille apresentou seu sistema aos colegas e
professores do instituto, que o adotaram com entusiasmo. Em 1825, publicou
a primeira edição do Sistema Braille, sendo a segunda e última edição publicada
em 1837, que permanece inalterada.
Mesmo assim, o Sistema Braille não foi reconhecido oficialmente pelo governo
francês até 1854, dois anos após a morte de seu criador.
Louis Braille faleceu em 9 de janeiro de 1852, aos 43 anos, vítima de
tuberculose. Ele foi sepultado em sua cidade natal, mas, em 1952, seus restos
mortais foram transferidos para o Panteão de Paris, como reconhecimento de sua
criação, que abriu portas e janelas para as pessoas cegas e/ou com baixa visão
de todo o mundo.
Braille no Mundo
Em 2019, a ONU, em parceria com a Organização Mundial da Saúde - OMS, estimou
que cerca de 2,2 bilhões de pessoas convivem com deficiência visual ou
cegueira.
Graças ao legado de seu criador, o sistema braille é usado por milhões de
pessoas cegas ou com baixa visão, que assim podem ler e escrever em diferentes
idiomas, bem como acessar às mais diversas disciplinas, como matemática,
química, música e outras áreas do conhecimento.
Este revolucionário sistema também pode ser usado com o auxílio das novas
tecnologias, como máquinas datilográficas Braille, impressoras Braille, linhas
Braille, scanners, bem como por softwares que transformam texto para áudio, no
computador ou no celular, sendo importante afirmar que, muito embora o áudio
auxilie a pessoa cega e/ou com baixa visão no seu acesso à informação, nem de
longe poderá substituir o sistema Braille, por ser este o único meio de leitura
direta existente.
O Braille no Brasil e em Pernambuco
Em 1854, o Imperador D. Pedro II, atendendo a uma reivindicação do jovem cego
José Álvares de Azevedo, cria, em 17 de setembro, no Rio de Janeiro, o Imperial
Instituto dos Meninos Cegos, que posteriormente passou a ser denominado
Instituto Benjamin Constant, primeiro educandário do País e de toda a América
Latina..
Segundo o levantamento feito pelo IBGE através do Censo de 2010, havia no
Brasil cerca de 6 milhões e 500 mil pessoas com cegueira e/ou baixa visão, o
que demonstra a imperiosa necessidade de se aprimorar políticas públicas
destinadas a incluir este segmento da sociedade.
Em Pernambuco, foi a vez do jovem cego Antonio Pessôa de Queiroz, ex aluno do
Instituto Benjamin Constant, criar, em parceria com a Irmandade da Santa Casa
de Misericórdia, em 12 de março de 1909, o Instituto de Cegos do Recife, que
hoje tem o nome de seu fundador, foi o segundo educandário no Brasil e o
primeiro do Brasil, mantido por uma instituição particular. Por dificuldades
financeiras, o educandário fechou suas portas em 1927, mas, foi reaberto em
1935, em seu atual endereço, na Rua Guilherme Pinto, 146, Graças.
Tiflologia
É a ciência que estuda os aspectos referentes à cegueira e à baixa visão. Em
Pernambuco, começou a ser difundida a partir de 1956 pelo Professor cego Júlio
do Carmo (1905-1975), por iniciativa da Secretaria de Educação, iniciativa
esta, pioneira em todo o País. A partir de 2005, o Curso de Tiflologia passou a
ser oferecido pela Associação Pernambucana de Cegos - APEC, e a partir de 2007,
pelo Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento às Pessoas com Deficiência
Visual - CAP/PE. Em 2012, a Tiflologia passou a ser reconhecida pelo Governo do
Estado, através da Lei nº 14.789, que instituiu a Política Estadual de Inclusão
da Pessoa com Deficiência.
Assim sendo, pode-se afirmar que o Sistema Braille hoje é ensinado e difundido
em todo o País e, em Pernambuco, pelo Instituto de Cegos Antonio Pessôa de
Queiroz, pela Biblioteca Pública Estadual, através do Setor Braille, pela
Associação Pernambucana de Cegos - APEC, fundada em 05 de fevereiro de 1983, e
pelo CAP/PE, cujas atividades se iniciaram em 2002, e que atualmente funciona
no prédio do Centro de Atendimento Educacional Especializado do Recife - CAEER,
vinculado À Secretaria de Educação.
Antônio Muniz é cego, Professor Braillista do Centro de Apoio Pedagógico para
Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual de Pernambuco - CAP/PE, membro da
Comissão Brasileira do Braille, órgão de Assessoramento ao Ministério da
Educação, e integra a Diretoria Executiva da Associação Pernambucana de Cegos -
APEC.