28/05/2020
A gripe espanhola no Rio de 1918
Do livro “Pandemias”, de Stefan Cunha Ujvari, Ed. Contexto, 2011, pag. 30-33.
Leiam a fiquem espantados com as similaridades que existem entre o que ocorreu em 1918 (com a gripe espanhola) e os fatos que estamos presenciando atualmente. Até o "quinino" apareceu naquela época como tentativa terapêutica! Lembrem-se que 1918 foi há pouco mais de 100 anos.
“A gripe espanhola reinou em 1918. Brasileiros liam jornais com notícias atrasadas da pandemia em progressão na Europa, América do Norte e África. Sua chegada era aguardada a qualquer momento. Um despacho do diretor geral da Saúde Pública ordenou a abertura do lazareto da Ilha Grande no final de setembro. O local seria parada obrigatória das embarcações vindas das áreas afetadas, principalmente da África. As tripulações permaneceriam em quarentena para tentar barrar a entrada viral nas portas brasileiras. Porém, a medida foi tardia para um vírus facilmente transmitido: a gripe espanhola já circulava no Brasil havia cerca de 15 dias. Uma provável embarcação inglesa já desembarcara passageiros doentes em Salvador, Recife e Rio de Janeiro. A pandemia se espalhava nas principais cidades brasileiras.
O início da gripe espanhola no Brasil estampou-se nas manchetes dos jornais. A população, apavorada, testemunhou a elevação do número de óbitos, e o pavor fez com que as pessoas se esquecessem de outros males diários: tuberculose, malária, febre tifoide, sarampo e varíola. As conversas amplif**avam as recomendações divulgadas em jornais, revistas e volantes que ensinavam medidas de prevenção da doença. Não havia nada a respeito da importância da lavagem das mãos que hoje sabemos. Eram orientados a uma rigorosa higiene bucal, nasal e da garganta para evitar a doença. Medidas inúteis aos olhos atuais.
A população não sabia a causa daquele mal: os vírus ainda não tinham sido visualizados. Cidadãos se reuniam nas ruas e praças em busca dos jornais diários que publicavam as últimas conclusões dos professores das faculdades de medicina. Porém, nada f**ava esclarecido, pois ainda debatiam sua causa: viral ou bacteriana? Os noticiários apenas traziam estatísticas diárias com o número de mortes em constante subida.
Especulações populares não faltavam. A gripe espanhola teria surgido na Primeira Guerra Mundial. Explosões, corpos em decomposição e sangue favoreceram o surgimento dos miasmas, gases venenosos, que, inalados, causaram a doença. Os cristãos deram palpites para a origem do mal: o velho e conhecido castigo de Deus pelas imoralidades e pecados – explicação dada em diversas epidemias passadas. O pânico da espanhola crescia pelos boatos. Diziam que o governo omitia dados reais do número de mortes; que em algumas cidades brasileiras corpos eram enterrados em valas comuns, incinerados ou abandonados e que o governo escondia esses fatos da população. Tudo boato.
O tratamento se baseou no conhecimento da época: purgativos para eliminar toxinas acumuladas nas fezes. Outros desesperados receberam lavagem intestinal e até mesmo sangrias. As farmácias f**avam lotadas de clientes em busca dos frascos de vidro de medicamentos, cujos preços dispararam. Os mais vendidos traziam em seu rótulo “quinino” ou vaselina mentolada. O quinino era excelente para a febre da malária, mas inef**az para a gripe. Nenhum tratamento convencia a população, que ainda tentava a prevenção ou a cura com banhos quentes, massagens e dezenas de outras substâncias inef**azes.
Os mercados vendiam mercadorias populares contra a gripe, que esgotavam rapidamente. Acabavam os estoques de limão, alho, cebola, sal, pimenta, aguardente e cânfora. Ao longo do dia os preços desses produtos subiam. As poucas máscaras, novidade inglesa e importada, esgotaram nas casas especializadas.
A população de 1918 não lotou os hospitais. Havia um receio de que o ambiente hospitalar disseminasse doenças, e, por isso, as pessoas tinham pavor da internação. Os doentes procuravam os médicos que atendiam em casa, nos consultórios particulares, nas clínicas e, raramente, nos hospitais. Consultavam curandeiros, benzedeiras e até mesmo alunos de medicina e farmacêuticos recrutados.
Em tempos atuais, a volta às aulas foi adiada pela gripe suína. Porém, em 1918, a situação foi muito pior. Fecharam escolas, clubes, fábricas, escritórios, conferências, reuniões, bares, teatros, cinemas e cancelavam jogos de futebol. Algumas cidades se esvaziaram pela fuga dos mais privilegiados. Trens lotados deixavam São Paulo em busca de sítios, cidades interioranas ou estâncias. Os órgãos sanitários tentavam acalmar a população informando que não havia motivo para pânico e que o medo predispunha à doença. Hoje, reclamamos da demora da vacina contra a gripe suína. Em 1918, tudo era tentado para prevenir a gripe. Incentivou-se a vacina contra a varíola por achar que pudesse dar proteção parcial contra a gripe. Os Institutos Butantã e Oswaldo Cruz reuniram três tipos diferentes de bactérias na tentativa, frustrada, de produzir uma vacina.
Finalmente, a epidemia sumiu das cidades brasileiras e a rotina voltou ao normal. Os fatos de 1918 seriam lembrados por décadas. Até hoje, a pandemia da gripe espanhola ressurge em livros e reportagens.”