14/01/2026
Qual é o tamanho que alguém pode ocupar dentro da gente sem que a gente se dê conta?
A notícia da passagem de um colega de trabalho me atravessou.
A última vez que o encontrei, eu não disfarcei o contentamento. Cheguei contando para minha namorada como foi bom reencontrá-lo. Contei que f**ava feliz que alguém como ele estivesse trabalhando onde estava. Quando eu era adolescente me entendendo enquanto LGBTQIA+, ele e o namorado eram referências. Sem precisar dizer nada, mostravam que era possível existir de um jeito que eu podia me reconhecer. Compartilhavamos da mesma religião conservadora e que naquele momento me oprimia de viver esse tipo de amor, enquanto ele resistia dentro desse espaço. Vizinho de afeto, de futuro, de possibilidade.
Anos depois, volto para a mesma cidade que ele. Encontro uma pessoa que, além de ter sido referência para mim na adolescência, havia se tornado referência pessoal e profissional para muitas outras pessoas profissionalmente, inclusive pra mim. Numa cidade conservadora e dura com a população LGBTQIA+ ele ocupou um espaço signif**ativo, segurou a barra e fez a diferença. É uma perda que talvez nem todos consigam dimensionar, mas quem está perto sabe o tamanho.
Disruptivo, generoso com o riso, com a presença, com a criação. Me vejo nesse espelho. Também sou uma pessoa LGBTQIA+ vivendo e trabalhando numa cidade que nem sempre está disposta a nos receber. Também conheço o esforço de continuar abrindo espaço, atendendo, construindo comunidade, segurando dores que a cidade não nomeia.
O que f**a dele em mim é tudo isso. Mas também um chamado: olhar com mais cuidado para quem está perto e cultivar relações que façam o mesmo. Hoje foi um dia de perda por aqui.