21/09/2021
Psicofobia: Uma Forma de Discriminação Antiga, Cara e Próxima de Você
Por Alan Costa \ Formado em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília\ Especialização em Psicologia Clínica – com foco em pessoas com depressão e ansiedade\ atualmente atendendo pela modalidade online.
Instagram: https://www.instagram.com/alan_costapsi/
Em tempos de Setembro Amarelo é sempre importante chamar a atenção de todos para um assunto muito difícil: o suicídio.
Simplesmente falar sobre ele já é considerado um tabu para muitas pessoas.
Além disso, temos uma segunda dificuldade que agrava a situação: cerca de 75% dos casos de suicídio tem alguma ligação com um transtorno psicológico, entre eles, a depressão, a ansiedade e a esquizofrenia são os que mais se destacam.
E aqui chegamos ao ponto principal deste texto: saúde mental.
Até hoje falar sobre saúde mental ainda é também uma questão de tabu para a maior parte da nossa sociedade.
Vivemos uma era em que pessoas sem nenhuma formação em saúde querem receitar remédios, ditar tratamentos e escolher se tomam ou não vacinas.
É um tempo onde a Medicina, até pouco tempo atrás tão bem-vista, virou uma matéria de discussão comum, onde muitos são aqueles que ignoram as informações dos técnicos da área em nome de seguir suas próprias ideologias.
Mas a verdade triste por trás disso, é que esse mal que vemos a Medicina enfrentar hoje é a realidade comum da Psicologia e da Psiquiatria desde sua fundação.
O resultado dessa realidade é um tipo de discriminação muito antiga, mas que recebeu um nome próprio a pouco tempo: a Psicofobia.
Mas afinal de contas, o que é a Psicofobia?
É o preconceito contra pessoas que sofrem de transtornos e deficiências mentais.
Ela aparece claramente na forma de expressões como “Louco” ou “Doido”. Geralmente usadas para falar sobre pessoas que representam perigo físico ou que são dignas de desprezo por suas atitudes.
Uma forma sutil, mas ainda mais danosa de Psicofobia vem na forma da negação da doença ou na negação de busca por ajuda profissional.
É comum que a própria pessoa que vive o transtorno não aceite que o que ela vive se trata de um adoecimento.
O estigma que familiares, amigos, colegas e a sociedade de modo geral coloca sobre essas pessoas faz com que os sintomas que a pessoa apresenta sejam encarados como sinais de fraqueza, preguiça, estupidez, imaturidade, exagero, entre outros.
E essa negação da ajuda é mais grave porque a longo prazo, assim como qualquer outro tipo de adoecimento, ao continuar sem tratamento adequado, o quadro tende a piorar, e assim, muitas vezes, algo que poderia ter sido mediado rapidamente se torna uma bola de neve que se arrasta por anos a perder de vista.
E as consequências disso geralmente são visíveis apenas para o próprio paciente e aqueles de seu círculo mais íntimo. Geralmente aparecendo na forma de relacionamentos destruídos, empregos perdidos, sonhos nunca alcançados, familiares mergulhados em uma vida de instabilidade emocional e sofrimento.
E de onde vem a Psicofobia?
Em toda a história da humanidade, entre as mais diversas culturas do mundo, pessoas com transtornos mentais foram tratadas como criminosas, portadoras de entidades espirituais malignas, inimigas dos deuses, entre diversas outras situações degradantes.
Muitos foram torturados, mortos, exilados ou abandonados devido às limitações que eram impostas por seus quadros mentais.
Foi somente no período do Iluminismo que as pesquisas científicas se intensificaram e novas formas de lidar com o adoecimento mental vieram a surgir.
Infelizmente, algumas práticas científicas, apesar de eficientes na avaliação de dados, eram tão cruéis quanto os tratamentos místicos que existiam antes delas.
As mais famosas, foram retratadas várias vezes no cinema e na televisão, que eram os meios mais comuns que o grande público tinha de entrar em contato com essa realidade.
Durante muitos anos, a psiquiatria e a psicologia foram retratadas em inúmeras obras, como ciências experimentais, perigosas, que traziam mais malefícios do que benefícios para a vida das pessoas.
Na década de 1970, a maior parte dessas práticas desumanas começou a ser abandonada, e inúmeros movimentos de profissionais da saúde mental culminaram no desenvolvimento de novas formas de enfrentar os transtornos.
No Brasil, isso ficou marcado pela Reforma Psiquiátrica, que durante anos mudou o cenário da Saúde Mental no país e em 2001 alcançou a lei 10.216 deste mesmo ano, garantindo que as políticas públicas e privadas seriam voltadas para modelos de assistência mais humanizados.
Mas infelizmente esse segundo momento da saúde mental não foi bem capturado pela mídia, e foi essa mistura de práticas ruins antigas ficando famosas e pouca representatividade das boas práticas mais recentes que desenhou uma figura que se difere pouco da inicial.
O discurso mudou, mas se antes os pacientes eram chamados de “possuídos”, “hereges”, “criminosos”, etc. Agora passaram a ser tratados como “fracos”, “preguiçosos”, “frescos”, “doidos” ...
E quanto custa a Psicofobia?
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 450 milhões de pessoas sofrem de algum tipo de transtorno psiquiátrico. E estamos falando de números levantados, pré-pandemia de COVID-19, atualmente este número é provavelmente ainda mais alto.
Qualquer pessoa que já teve qualquer tipo de doença sabe que lidar com ela envolve coisas como: comprar remédios, ir ao médico, faltar trabalho/escola. E tudo isso gera custos, tanto para você, quanto para a sua família, o seu empregador, e em último nível, para o país em que você vive.
Com um transtorno mental não é diferente.
Estima-se que pelo menos 1 em cada 4 famílias tenha pelo menos um membro com algum tipo de adoecimento mental. E cada um deles gera custos financeiros, econômicos, sociais e pessoais para todos os envolvidos na vida desta pessoa.
Pesquisadores de diversas instituições já se aventuraram na tarefa de descobrir o custo final de lidar com tantas pessoas em situação de sofrimento psíquico clínico.
Estima-se que o custo final tenha sido de US$ 2,5 trilhões em 2010, e conforme a progressão continua, é esperado algo em torno de US$ 6 trilhões em 2030. Considerando que alguns países em desenvolvimento apresentam PIB em torno de US$ 1 trilhão, é realmente uma situação intimidadora.
E aqui estamos falando apenas em custos financeiros. Além deles, ainda há toda a qualidade de vida que é perdida devido à falta de tratamento adequado. E tudo isso se configura dessa forma principalmente devido a preconceito, ignorância, desprezo e falta de empatia.
E o que fazer a respeito?
1- Lembre-se que além da doença em si a pessoa também enfrenta o estigma, perdas de independência, autonomia e qualidade de vida. Só de não piorar as coisas você já vai estar ajudando.
2- A autoestima é uma das primeiras coisas perdidas na maior parte dos transtornos. Lembre-se que a pessoa vai precisar de apoio extra as vezes.
3- Tenha certeza de que a pessoa está mantendo os pilares da saúde mental em dia: medicação adequada, psicoterapia, atividade física, alimentação saudável e sono reparador. Em casos mais simples ou de pessoas já em alto de nível de recuperação, a medicação pode não aparecer, mas o único capaz de julgar isso é o psiquiatra.
4- Medo de repercussão negativa, vergonha e preocupação com a reputação são sentimentos comuns. Mas se prender a eles vai contribuir apenas para que tudo se agrave, então busque estratégias para vencê-los, às vezes, tudo começa com conversar um pouco com seu melhor amigo ou outra pessoa próxima de você.
5- Fale sobre questões de saúde mental abertamente, falar sobre as coisas as torna menos assustadoras e misteriosas. Ajude a acabar com esse tabu.
6- Se informe, divida o que você sabe e multiplique uma imagem positiva sobre o tema. Há diversos sites e profissionais nas redes que disponibilizam muita coisa sobre o assunto em seus perfis profissionais.
7- Fique atento a sinais como isolamento, desinteresse pelas atividades que gostava, irritabilidade, falta de autocuidado, músicas e publicações mais tristes nas redes sociais e discursos sobre “a vida estar mais difícil”. Essas atitudes podem não ser exatamente um transtorno formal ainda, mas são o suficiente para ver quando alguém está sofrendo, agir mais cedo pode evitar um transtorno propriamente dito.
Por fim, a grande verdade no final de tudo isso é: não existem causas exatas para um adoecimento mental. É uma conjunção de fatores muito variáveis que faz com que um transtorno surja ou não. Entre eles os principais são: genéticos, hormonais, sociais, emocionais e culturais.
Além disso, ao longo da vida, qualquer pessoa pode apresentar uma conjunção de fatores que se desenvolva na forma de um adoecimento mental. É exatamente por essa diversidade de fatores que os melhores profissionais para buscar são o psiquiatra e o psicólogo.
O psiquiatra, como médico, tem o papel de buscar medicamentos e práticas que auxiliem na diminuição das crises e aumentem a qualidade de vida média. Enquanto o psicólogo, atua como um suporte constante que facilita que a pessoa construa estratégias para lidar com todos os fatores não-biológicos que atuaram em seu quadro.
E quanto mais cedo você buscar um deles, mais simples é o acompanhamento que você vai precisar.
Onde procurar suporte profissional:
1- Profissionais Particulares: a maior parte das vagas costuma ser para quem pode pagar os preços médios de mercado, mas muitos oferecem algumas vagas para atendimentos sociais (mais baratos).
2- Planos de Saúde: vários planos já incluem atualmente tanto psiquiatras, quanto psicólogos.
3- Universidades: a maior parte das instituições de Psicologia e Psiquiatria oferece serviços gratuitos na modalidade clínica-escola ou hospital universitário.
4- CVV: o centro de valorização da vida atende pelo número 188. É focado em apoio emocional e prevenção ao suicídio.
5- Mapa da Saúde Mental: site que ajuda a encontrar serviços públicos de saúde mental disponíveis em todo território nacional, além de serviços de acolhimento e atendimento gratuitos ou voluntários realizados por ONGs, instituições filantrópicas, clínicas escola, entre outros.
Referências Bibliográficas
1- SILVA, Antônio Geraldo da. BBB: preconceito contra transtornos mentais está enraizado na sociedade. VEJA SAÚDE, 2021. Disponível em: . Acesso em: 09/09/2021.
2- ROCHA, Fábio Lopes. HARA, Cláudia. JAPROCKI, Jorge. Doença mental e estigma. RMMG – Revista Médica de Minas Gerais, 2015. Disponível em: . Acesso em: 09/09/2021.
3- SANTOS, Larissa. ‘Psicofobia’: os estigmas sobre saúde mental e medicamentos. CNNBrasil, 2021. Disponível em: < https://www.cnnbrasil.com.br/saude/psicofobia-os-estigmas-sobre-saude-mental-e-medicamentos/>. Acesso em: 09/09/2021.
4- Saúde mental ainda é um tabu? Entenda os motivos. Vitalk, São Paulo, 2021. Disponível em: < https://www.vitalk.com.br/blog/saude-mental-tabu/>. Acesso em: 09/09/2021.
5- CÂNDIDO, Maria Rosilene. OLIVEIRA, Edina Araújo Rodrigues. MONTEIRO, Claudete Ferreira de Souza. COSTA, José Ronildo da. BENÍCIO, Geórgia Salanne Rodrigues. COSTA, Flora Lia Leal da. Conceitos e preconceitos sobre transtornos mentais: um debate necessário. Periódicos Eletrônicos em Psicologia, 2012. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1806-69762012000300002&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em: 09/09/2021.
6- VERDÉLIO, Andreia. Fim do preconceito é fundamental para prevenção do suicídio. Agência Brasil, 2020. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-09/fim-do-preconceito-e-fundamental-para-prevencao-do-suicicio>. Acesso em: 09/09/2021.
A necessidade de conscientização com relação a doenças mentais, como ansiedade e depressão, é um dos alertas da campanha Setembro Amarelo.