30/12/2018
Comentários ao filme Bird Box - Uma leitura Junguiana
Apesar de haverem algumas leituras psicológicas sobre o filme, penso em trazer novos elementos e também colocando o enfoque Junguiano, ao qual sigo há mais de 20 anos.
Recomendo, entretanto, que as pessoas assistam primeiramente o filme antes de lerem os comentários, pois corre-se o risco de spoilers, assim como para maior compreensão dos detalhes citados.
Pássaro na caixa é a alma aprisionada na matéria. Em muitas culturas o número 4 representou o mundo manifesto, por isso a cruz esteve presente em todas as culturas antigas nas suas mais distintas formas.
Na leitura da psicologia, a onda invisível pode ser interpretada como a angústia ou depressão que na atualidade torna-se um dos grandes problemas de saúde no mundo. Estima-se que 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, conforme números da OMS. No best-sellers, “O demônio do meio-dia”, Andrew Solomon, descreve o que sentiu aos longos dos anos ao ser tomado por uma depressão severa, sendo que o suicídio parece ser a escapatória única para aqueles que querem se livrar de tamanho sofrimento.
No filme, aqueles que olham o mal é tomado por ele, por isso a necessidade de cobrir os olhos. Uma civilização que está totalmente voltada para o exterior, para os valores do mundo e da pseudorealidade exterior, necessita voltar a olhar ao interior para não se contaminar. Como dizia Jung: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. O sonhar refere-se ao mundo ilusório da matéria, daquilo que é perecível e transitório. A humanidade está doente por apenas olhar para fora e deixar de cultivar o mundo interior, tais como a imaginação, a criatividade e suas virtudes latentes. Somos produtos de uma época em que predomina a extroversão e a busca na matéria e na tecnologia para as respostas do mundo, sem o equilíbrio de uma busca interior. Assim, abrir os olhos representa tomar os valores da ilusão do mundo da matéria/sombra.
As pessoas dentro da casa representam nossos próprios conteúdos psicológicos. Ali temos aspectos masculinos arrogantes e frios, assim como sabotadores, - conteúdos que se passam como amigos mas que traem a própria consciência. As grávidas representam os conteúdos latentes do inconsciente que podem ganhar vida plena, caso atravessem o rio. Se continuarem dentro da casa, entretanto, estarão para sempre limitadas ao próprio ego.
A comunicação do rádio representou a ligação do inconsciente ao consciente. Ali houve o despertar, mesmo que ainda com dúvidas, pois duvidamos que há uma “comunidade” vivendo fora da ilusão que o mundo nos condiciona. É o convite para a saída da caverna no mito de Platão. Na vida real, recebemos diariamente estas “ligações” por meio dos sonhos ou de intuições, porém, os ignoramos considerando-os bobagens e sem nenhum sentido.
Para sair do domínio do complexo do ego, rumo à Individuação (conquista do Si-Mesmo), é necessário “atravessar o rio”, ou seja, sair do domínio do inconsciente coletivo, até à comunidade do Self. Os pássaros (a voz da Alma e da Intuição) é quem guia. Porém, no momento de maior dificuldade, a visão da Criança Interior é necessária, como símbolo da Pureza. E, então, lembramos os ensinamentos Bíblicos dizendo que somente pela pureza, somente convertendo-se como crianças, é que é possível entrar no reino do céu, ou seja, viver a Totalidade Humana.
Ao chegar na comunidade, daqueles que “olham para o interior”, temos o paraíso. Dar nome às crianças, simboliza que agora estava capaz de reconhecer seus conteúdos psicológicos. Jung tinha como prática dar nome às suas vozes interiores para diferenciá-las. Conversava, assim, com sua Anima (aspecto feminino na psique masculina) e outros conteúdos. É uma ótima prática psicológica dar nomes aos conteúdos, tais como a preguiça, a fome, ao ciúme, etc. No momento em que se nomeia, essas vozes passam a se tornar algo distinto da consciência, logo, com maior facilidade para serem controladas.
A libertação dos pássaros no final representam a libertação da Alma da matéria; não necessita mais do suporte material para suas experiencias. É o paraíso ou o Nirvana, como se queira chamar.
Como toda arte bela, o filme pode ganhar diversas interpretações. Nesta leitura encontramos um paralelo com a abordagem Junguiana, da consciência buscando sair do domínio do inconsciente coletivo e do complexo do ego para atingir a totalidade ou a Individuação.