23/03/2026
No consultório e na vida, é comum encontrarmos pessoas que possuem uma habilidade extraordinária: a de oferecer uma escuta generosa e um acolhimento genuíno a quem está ao seu redor. Elas são o porto seguro de muitos, sempre prontas para validar a dor alheia e dizer: “está tudo bem, você é humano”.
O paradoxo acontece quando o olhar se volta para dentro.
É como se, para o mundo, essa pessoa usasse um filtro de compaixão, entendendo as falhas como parte da jornada. Mas, para si mesma, ela utiliza uma lupa de alta precisão, que aumenta cada pequena falha e ignora as próprias conquistas.
Essa necessidade de ser “impecável” para os outros, o desejo de não decepcionar e de atender a todas as expectativas, muitas vezes esconde uma autocobrança silenciosa e exaustiva. A pessoa torna-se uma excelente cuidadora externa, mas uma vigilante interna severa, que não se permite o descanso ou o erro.
Na psicologia, sabemos que essa busca pela perfeição para garantir a aceitação gera um custo emocional alto. A rigidez cognitiva nos impede de ver que o nosso valor não depende da nossa utilidade ou do nosso desempenho constante.
O desafio terapêutico é nivelar essas lentes. É aprender a usar a mesma régua de bondade que oferecemos ao melhor amigo para medir a nossa própria humanidade.
Ser flexível consigo não é ser negligente; é ser justo. Afinal, para cuidar do outro com qualidade, precisamos primeiro de um ambiente interno minimamente seguro e gentil.