08/06/2020
Refletindo sobre o papel do silêncio e a forma como as pessoas fazem ou não uso dele, cheguei a “conclusão” que o silêncio pode ser um canal tanto de resistência ao crescimento quanto do próprio crescimento. Apoiado no silêncio o sujeito pode se tornar: acumula-DOR, silencia-DOR, nega-DOR ou dialoga-DOR, descobrir-DOR; repara-DOR , inspira-Dor e transforma-DOR.
Diante disso, tenho percebido como há pessoas que tratam o silêncio como uma experiência perturbadora. Não obstante, se utilizam de inúmeros artifícios para fugir dela. Há uma espécie de cancelamento do silêncio. Isso poderia ser bom, se não representasse uma fuga ao barulho interno. Me pergunto se tais pessoas já tentaram compreender o real motivo dessa fuga. O que o teu silêncio revela? O silêncio não engana, ele pode conduzir a descoberta alguma “verdade” sobre o sujeito. Como diria Freud: “Não somos apenas o que pensamos ser, somos mais”. Então penso que o silêncio pode desvelar algo da ordem desse “mais”, encoberto, negado.
O silêncio pode revelar o outro lado da moeda, aquilo que muitas vezes não aceitamos em nós. Deslizes, imperfeições e a falta existencial estão nesse pacote. A ferida narcísica de cada um nesse momento grita, dói – (talvez, por esse motivo, muitos corram desse mais). Minha vó já dizia: “foge da verdade como o diabo foge da cruz”. Se tem espaço, o silêncio faz a parte dele: traz a superfície o eco de dentro.
Esse eco pode expressar-se através do sentimento de angústia, muitos se negam a sentir. Está em jogo um sentir que pode abalar todo um Ideal do Eu. Verdadeira ameaça ao reino dourado mantido pelas idealizações infantis. Vale dizer que no campo das idealizações a perda não cabe. A criança mimada nada quer perder. Muitas vezes, ela fala no adulto, que reage través da blindagem.
É compreensível que o encontro com o estranho que nos habita não é nada fácil. É um ato de coragem. Uma verdadeira aposta no sujeito. Não há garantias e envolve riscos. Mas há algo da ordem processual que pode te inspirar e te ensinar a “TRANFORMA-DOR”. A vida se pronuncia e te dar a oportunidade de decidir. Muitos fazem resistência, se escondem no barulho vindo de fora na tentativa desesperada de negar a mensagem que vem de dentro. Tenta impedir que o silêncio o leve ao contato íntimo. Ao laço consigo mesmo. Que apresente sua arte ao artista.
Diante disso, cabe a cada um pensar como tem lidado com seu silêncio. Privar-se dele em sua potencialidade criativa é o mesmo que condenar o artista ao insucesso de sua obra. Esta fracassa sem ao menos ter tido a chance de revelar a beleza escondida em sua obra. Assim, sem possibilidade de simbolização, a obra e o artista morrem.