14/06/2013
DEVORADORES DE REIS
"Havia já dois presos no cubículo novo para onde eu fora levado. Um deles, um homem alto, corpulento, de barba preta, assim falava, conversando em voz baixa com o companheiro:
– Durante essa semana só consegui comer um rei. Você teve mais sorte, devorou dois!
O outro, sem se perturbar, com uma naturalidade impressionante, retorquiu:
– Não se lembra mais você da rainha que comeu no mês passado?
– Santo Deus – disse aos meus botões – estou aqui, numa prisão, com dois loucos terríveis! Esses homens, verdadeiras feras, falam em devorar um rei, como se um soberano, de cetro e coroa, fosse um bife que se come às pressas na hospedaria da estrada. Eram, com certeza, republicanos exaltados, que arrastados pela paixão política haviam perdido o uso da razão; e a mania deles, no triste estado de demência em que se achavam, era a extravagante preocupação de transformar todos os monarcas da terra em iguarias e manjares.
Confesso que tive grande medo dos meus companheiros de prisão. E se eles me tomassem por algum soberano da Grécia ou da Bulgária? Estaria eu irremediavelmente perdido.
Lembrei-me então do conselho prudente de um velho médico amigo meu: 'Quando estiveres entre os doidos, finge-te doido também'.
E foi isso que resolvi fazer. Passar, aos olhos daqueles dois loucos, por um terceiro louco, vítima da mesma mania. Levantei-me, então, solene, e a eles me dirigi da seguinte forma:
– Isso que os senhores contam não é nada! Já comi, em menos de um ano, vários reis, rainhas e princesas.
E como os regicidas já me observassem com grande espanto, achei mais prudente acrescentar:
– Já engoli vivo um arquiduque com roupa, medalha e tudo!
– Esse camarada está doido – resmungou o homem de barba preta.
– Louco varrido – acrescentou o outro. – O melhor é não lhe dar importância alguma. Vamos jogar uma partida.
O homem da barba preta puxou então de sob uma banqueta rústica um tabuleiro de xadrez e uma coleção de peças encardidas e toscas, desse conhecido jogo. Só então percebi o engano que atinei com o ridículo em que havia caído. Aqueles dois homens não passavam de simples e pacatos enxadristas: as peças do jogo – reis, damas, bispos, cavalos, etc – na falta de material próprio, eram fabricadas com miolo de pão. Pela combinação original existente entre eles, o vencedor de cada partida tinha o direito de devorar o rei adversário. Isso importava, para o vencido, num grande sacrifício, pois era forçado a economizar, nas refeições seguintes, uma parte do pão suficiente para fabricar um novo rei.”
(TAHAN, Malba. Devoradores de reis. Maktub (está escrito) – Contos orientais. Rio de Janeiro: Conquista. 1955. 7ª edição.)