07/08/2019
Parabéns
CORREÇÃO DE MIELOMENINGOCELE POR FETOSCOPIA É REALIZADA EM CAMPINAS
Além de reduzir o risco de complicações uterinas e amenizar as consequências motoras e neurológicas dessa patologia após o nascimento, essa técnica minimamente invasiva reduz a incidência de partos prematuros, comuns nas cirurgias abertas dessa natureza.
No dia 4 de julho, na Maternidade de Campinas (SP), a equipe multidisciplinar composta pelo cirurgião pediátrico Prof. Dr. Márcio Lopes Miranda, pelos especialistas em Medicina Materno-fetal, Profs. Drs. Kleber Cursino e Giuliane Lajos, pelo neurocirurgião Prof. Dr. Matheus Dal Fabbro e pelos anestesiologistas Marcel Rodrigues Ferreira e Luis Fernando Carlin Mutterle realizou cirurgia intrauterina de mielomeningocele por fetoscopia, que deverá minimizar as sequelas dessa malformação.
O bebê, uma menina, de 26 semanas foi operado dentro do útero para reposicionamento da medula no canal, cobertura com substituto de dura-máter e fechamento da pele. O feto e a mãe mantiveram-se em ótimas condições durante todo o procedimento, sendo a alta da paciente realizada no quarto dia após a fetoscopia. De acordo com o cirurgião pediátrico, no controle pós-cirúrgico, bons resultados já foram observados, como a redução da herniação do cerebelo, conhecida como Arnorld-Chiari, ainda que sequelas motoras não estejam totalmente afastadas.
Todo o procedimento, que usa técnica minimamente invasiva, é monitorado por ultrassom por especialista em medicina fetal, para controle do batimento cardíaco e outros sinais da mãe e do feto.
Conforme explicação do Prof. Dr. Marcio, embora o defeito ósseo permaneça, o recobrimento precoce da medula minimiza as sequelas motoras e neurológicas dessa patologia após o nascimento. “Essa malformação, em que o tubo neural não se fecha durante a gestação, com exposição da medula ao líquido amniótico, especialmente na região lombo-sacra, é muito agressiva. Podem haver perdas motoras na pelve e membros inferiores e os bebês já nascerem paraplégicos, com problemas vesicais e intestinais, como incontinência f***l e bexiga neurogênica”. A mielomeningocele também pode causar a dilatação dos ventrículos cerebrais, com o surgimento da hidrocefalia por acúmulo de líquor, gerando dificuldades para caminhar e comprometimento cognitivo, além de meningites e necessidade de efetuar derivação ventriculoperitonial.
Ele cita o estudo MOMS, que é uma análise norte-americana que avaliou o desempenho da cirurgia pré e pós-natal, segundo o qual a melhora cognitiva e motora decorrente desse tipo de cirurgia é significativa. A necessidade de derivação ventrículo peritoneal diminuiu de 80% para 40% com a cirurgia intrauterina.
Equipe e história
Neste último mês, a equipe, que é formada por especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizou dois procedimentos fetoscópicos com sucesso. A gestação da outra paciente também caminha bem, para a 30ª semana.
Embora após a cirurgia a tendência é que o parto seja prematuro, a esperança da equipe, de acordo com o Dr. Márcio, é que nas duas fetoscopias já realizadas a gestação alcance entre 35 e 37 semanas (o tempo normal é de 40 semanas), pois o procedimento fechado reduz esse risco. “É uma grande satisfação ter participado desta equipe nessas cirurgias e já constatar bons resultados, pois até pouco tempo o uso dessa técnica era impensável”, declara.
Ele destaca que a primeira cirurgia fetal aberta dessa natureza foi realizada no Brasil em 2002, pelo também cirurgião pediátrico Lourenço Sbragia Neto e equipe multidisciplinar. “Também em cirurgias fetais é imprescindível a participação de cirurgiões pediátricos, mas não se pode abrir mão de nenhum dos demais especialistas.”
Dr. Márcio fez seu treinamento em Cirurgia Fetal nos EUA, com o Dr. José Luis Peiró Ibáñez, cirurgião pediátrico diretor de Cirurgia Fetal Endoscópica do Centro Fetal do Cincinnati Children’s Hospital e especialista em Cirurgia Fetal, Neonatal e Minimamente Invasiva. O Dr. Peiró participará como conferencista do XII Congresso Paulista de Cirurgia Pediátrica que acontecerá em São Paulo (SP), neste agosto de 2019.
Política pública, SUS, convênios e informação
Segundo o entrevistado, o número de casos de mielomeningocele tem aumentado no mundo, fato que é mais evidente em países em desenvolvimento, por carência de ácido fólico. Mas pode ser evitada.
No Brasil, segundo ele, em 2017 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com base nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicou a Resolução RDC n° 150, que prevê a adição de quantidades mínimas de ferro e ácido fólico em cada uma das farinhas de trigo e de milho industrializadas, atualizando regulamento de 2002 sobre o tema. “A ingestão de ácido fólico antes da gravidez diminui em até 30% a incidência, desde que a mielomeningocele não tenha causas genéticas”, revela.
Quanto à possibilidade de realização dessa cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e por convênios, ele afirma ser esse seu desejo, e lamenta que ainda não tenha sido incluída no Rol de Procedimentos do órgão e da Agência Nacional de Saúde (ANS), “apesar de não se tratar mais de procedimento experimental e já estar estabelecido mundialmente, também na literatura médica”.
Para ter o sucesso esperado, no entanto, a operação deve se realizar dentro de prazos bem definidos. Embora os primeiros sinais da doença possam aparecer a partir da 12ª semana de gestação, o diagnóstico é possível, por ultrassom, a partir da 16ª semana. A cirurgia fetal pode ser realizada entre 24 e 26 semanas de gestação, se não houver contraindicações.
E, dando sequência a um projeto iniciado no ano passado, com o lançamento do gibi Gol de Placa, sobre hérnia inguinal, para melhorar a qualidade da informação sobre cirurgias pediátricas para crianças e leigos, o Dr. Márcio Miranda prepara nova edição. No novo número, que deverá ser lançado ainda em agosto, a mielomeningocele será abordada de forma simples e didática, mostrando as diferentes etapas de sucessivos processos cirúrgicos, do diagnóstico até o pós-operatório, de forma a desmistificá-la.