Débora Cunha

Débora Cunha psicólogo

O OCEANO E UMA CONCHINHA - Fabricio Carpinejar Posted: 31 Mar 2013 06:41 AM PDT Encontrei uma senhora com sacolas de mer...
03/04/2026

O OCEANO E UMA CONCHINHA - Fabricio Carpinejar

Posted: 31 Mar 2013 06:41 AM PDT

Encontrei uma senhora com sacolas de mercado subindo as escadas do hospital.

Perguntei se poderia ajudar. Minha mãe sempre me ensinou que não custa nada ser educado.

Carreguei as sacolas até o terceiro andar. Ela se despediu com um beijo em minha testa.

– Vá com Deus, meu anjo.

Fiquei levemente encabulado, minha testa estava úmida, e ela secou meu suor com seu beijo.

Içara, soube mais tarde, acompanhava seu marido André.

Ele tem câncer em estado avançado, metástase nos ossos. Situação grave.

Os dois partilham um casamento de 30 anos. São amigos de minha amiga Cíntia Moscovich.

Já testemunhei o casal abraçado, tomando vinho, comendo risoto, cantando músicas em bar no Moinhos de Vento.

Não lembrei de sua feição na hora. Quando ofereci ajuda, jurei que era uma estranha.

Mostrava-se toda abatida, acuada pela tristeza, as olheiras de coador de café.

Eu me desculpei quando a revi subindo a ladeira da Ramiro Barcelos. Expliquei que não a reconheci naquele dia.

Ela concordou comigo.

– Tampouco me reconheço, querido.

Sua simplicidade, sua humildade, sua honestidade me desarmaram.

Já não queria carregar suas sacolas, mas seus olhos.

Içara sofre monstruosidades. Sofre essa viuvez devagar. Essa viuvez vindo. Essa viuvez injusta informando seu coração pouco a pouco da tragédia.

Içara vive sendo enganada pela esperança e não desiste de acordar, dormir, acordar, dormir.

Com a fé exausta, me encarou profundamente. Colocou as mãos em meus ombros e pediu para que eu rezasse por uma coisa.

Uma única coisa. Nem era capaz de pedir para seu marido melhorar. Nem era capaz de suplicar o retorno da rotina.

Nem era doida de encomendar milagre, de que eles possam viajar para Grécia, admirar os afrescos da Itália, partilhar novamente de música, gastronomia e literatura.

Içara pede uma só coisa, uma só coisinha: dormir mais uma noite de conchinha com seu marido. Uma só noite soletrando a respiração do seu homem.

Uma só noite com as pernas entrelaçadas, as cabeças encostadas para igual horizonte. Uma só noite com a paz dos lençóis de casa e os travesseiros lavados. Uma só noite despertando ao mesmo tempo, com a mesma vontade de mate e varanda.

Só dormir de conchinha mais uma vez. Uma noite fora do hospital, do soro, do medo de morrer.

Uma noite absolutamente normal. A normalidade no amor é a perfeição.


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 31/03/2013 Edição N° 17388

A angústia de uma alma ferida não é um grito; é o silêncio que sobra depois que o grito desiste. É uma anatomia invisíve...
02/04/2026

A angústia de uma alma ferida não é um grito; é o silêncio que sobra depois que o grito desiste. É uma anatomia invisível, onde a dor não se localiza nos nervos ou nos músculos, mas na dobra do tempo, naquele exato milésimo de segundo entre o que éramos e o que o golpe nos tornou.
​O Arquiteto do Abismo
​Frequentemente, descreve-se o sofrimento como um peso. Mas a alma verdadeiramente ferida sabe que o peso é suportável; o que destrói é a leveza súbita. É a perda da gravidade emocional que nos mantinha presos ao mundo das pessoas "comuns". Quando o centro de gravidade se rompe, a alma passa a flutuar em um vácuo onde as palavras — "esperança", "amanhã", "recomeço" — perdem a densidade e tornam-se apenas ruído branco.
​A ferida profunda não sangra para fora; ela sangra para dentro, inundando os alicerces da identidade até que a pessoa comece a se sentir um hóspede de si mesma. Você olha no espelho e reconhece as linhas do rosto, mas não reconhece o olhar que o habita. É a expatriação interna: o sentimento de ser um refugiado dentro do próprio peito.
​A Memória das Coisas Não Vividas
​O que ninguém diz sobre a alma ferida é que ela não sofre apenas pelo que perdeu, mas pela mutilação do futuro. Cada trauma é um ladrão de possibilidades. A angústia nasce da percepção de que certas versões de nós mesmos morreram antes mesmo de nascerem.
​"A alma ferida não teme a escuridão; ela teme a luz, pois a luz revela a extensão das ruínas que ela aprendeu a decorar no escuro."
​Não se trata de uma tristeza comum que o tempo cura. O tempo não é um médico; o tempo é apenas o cenário. A cura, para uma alma ferida, não é o retorno ao estado original — isso é impossível. A cura é uma forma de kintsugi espiritual, a arte de colar os pedaços com o ouro da cicatriz, aceitando que a beleza agora reside na quebra, e não na integridade.
​O Santuário do Isolamento
​Há uma solidão específica na angústia profunda: a percepção de que a dor é um idioma que ninguém mais fala fluentemente. Você tenta traduzir o que sente, mas as palavras saem pálidas, insuficientes.
​O cansaço da máscara: A energia gasta para parecer "funcional" consome o pouco que resta da essência.
​O eco do porquê: A busca por um sentido que, muitas vezes, simplesmente não existe na violência do acaso.
​A suspensão do agora: Viver com a alma ferida é estar preso em um eterno "entre-lugares", onde o passado é uma assombração e o futuro é uma ameaça.
​No fim, a angústia é o reconhecimento de que somos profundamente frágeis e, ao mesmo tempo, absurdamente persistentes. Ser uma alma ferida é carregar um deserto inteiro dentro de uma gota de orvalho e, ainda assim, encontrar força para respirar, mesmo quando o ar parece ter se transformado em vidro.

Daniel Tertuliano
Livro Reflexões na Caminhada.

TEXTO ESSENCIALPerdido nos meus pensamentos, me pego questionando essa engrenagem estranha que é existir. Às vezes, pare...
19/03/2026

TEXTO ESSENCIAL

Perdido nos meus pensamentos, me pego questionando essa engrenagem estranha que é existir. Às vezes, parece que a gente nasce com uma sede de infinito, mas é jogado em um mundo onde tudo é passageiro. O maior paradoxo da nossa jornada é esse: passamos a vida fugindo do vazio, tentando preencher o tempo com certezas e barulho, quando a única coisa que realmente nos pertence é o mistério.
​É uma agonia que não se explica com palavras, uma espécie de saudade de um lugar que a gente nem sabe se existe. Queremos raízes, mas o chão insiste em ser vento. E essa liberdade que tanto buscamos acaba sendo o nosso maior peso, porque escolher uma direção é sempre ter que abrir mão de tantas outras versões de nós mesmos. Ficamos nesse "quase", tateando no escuro, com medo de que a dúvida seja um sinal de que estamos perdidos.
​Mas, olhando bem lá no fundo, sinto que a alma não quer respostas prontas. Ela quer presença. Existe uma espiritualidade silenciosa na nossa fragilidade; uma beleza sagrada em ser esse rascunho inacabado. Talvez a gente não sofra porque algo está errado, mas porque somos grandes demais para caber apenas na lógica e no que é visível. Se fôssemos inteiros, seríamos estátuas, frias e imutáveis. É por sermos quebrados, cheios de fendas e hesitações, que algo maior consegue atravessar a gente.
​Viver dói porque o amor e o medo caminham de mãos dadas, e a incerteza é o único altar onde a fé — não necessariamente religiosa, mas a fé na própria vida — realmente faz sentido. Do ponto de vista existencial, fomos "lançados" aqui, sem roteiro, e essa é a nossa maior angústia e, ao mesmo tempo, nossa única chance de sermos reais. No fim, a gente não encontra o caminho através da razão, mas através da entrega. É aceitar que não precisamos ter o mapa nas mãos para saber que estamos voltando para casa, mesmo que a casa seja apenas esse silêncio profundo que habita o peito quando a gente finalmente para de lutar contra o que não pode controlar.
​A gente é, simultaneamente, o escultor e a pedra. Dói ser esculpido pelas circunstâncias, mas é nessa fricção com o incerto que a nossa essência ganha contorno. Não somos o que os outros esperam, nem o que os nossos medos dizem; somos o que decidimos fazer com esse vazio que insiste em nos visitar nas madrugadas.

Sou um pouco dos meus amigos, um pouco da minha casa, sou parte do que me faz feliz, uma parcela de sonhos. Sou de tudo ...
08/01/2026

Sou um pouco dos meus amigos, um pouco da minha casa, sou parte do que me faz feliz, uma parcela de sonhos. Sou de tudo um pouco, um pouco de tudo. Sou parcialmente um ser bizarro, logo, sou um ser humano. Sou uma saudade ambulante de um passado, e uma expectativa insistente de um futuro melhor. Sou o ódio e a simpatia, o sorriso e a cara amarrada. Sou os erros que cometi, e os passos certos que dei. Simplificadamente; sou uma vida que já viveu, e ao mesmo, tempo uma vida que ainda está para viver.
(Deborah Strougo)

Parabéns a todos Psicólogas(os), pois fazemos a diferença a todos que nos procuram.
27/08/2025

Parabéns a todos Psicólogas(os), pois fazemos a diferença a todos que nos procuram.

25/03/2025

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