07/02/2026
✨Na minha experiência em atendimentos percebo que muitos pacientes procuram atendimento em saúde mental no auge da crise — e depois somem.
Isso acontece com frequência aos domingos, em relações de dependência emocional, vínculos tóxicos e em funcionamentos borderline.
E não é acaso.
Na maioria das vezes, o sujeito não busca um processo terapêutico.
Busca alívio imediato da angústia.
A crise rompe defesas, desmonta o que vinha sendo sustentado à força.
Quando algo alivia — uma reconciliação, uma mensagem, uma anestesia emocional — a urgência desaparece.
E com ela, o vínculo com o tratamento.
O domingo é um dia simbólico importante: menos rotina, menos papéis sociais, menos distrações.
O vazio aparece.
Na segunda-feira, a vida “funciona” de novo — e o sofrimento volta a ser tolerável.
Em relações de dependência, o terapeuta pode ocupar temporariamente o lugar de sustentação psíquica.
Mas quando o objeto primário retorna, o tratamento perde espaço.
Não é abandono — é retorno ao vínculo que organiza o sujeito, mesmo que o adoeça.
Em funcionamentos borderline, a aproximação terapêutica também assusta.
Ser sustentado, ouvido, atravessar a crise sem colapsar…
Isso pode ser vivido como ameaça à própria organização psíquica.
Há ainda uma fantasia inconsciente muito presente:
“Se eu melhorar, eu perco algo.”
O outro, o lugar, o sentido que o sofrimento garante.
Por isso, muitos conseguem pedir ajuda na dor,
mas não conseguem sustentar a elaboração.
Não se trata de falta de compromisso.
Trata-se de estrutura.
E o trabalho clínico começa justamente aí:
onde o sujeito só consegue aparecer quando tudo desmorona.