05/04/2026
Há um tipo de domingo que não se explica — se reconhece.
Mesa posta no improviso, bolo no centro como quem organiza o mundo, crianças orbitando sem muita cerimônia, e os adultos fingindo que têm algum controle da cena. Não têm. Ainda bem.
Era Páscoa. Dia desses que, mesmo para os distraídos, carrega um certo peso simbólico — renascimento, promessa, fé. Mas ali, naquele pedaço de varanda, o milagre era mais simples: estávamos juntos.
Edu ainda nem tinha feito aniversário — o calendário diria que só amanhã —, mas a vida, mais prática que qualquer liturgia, resolveu adiantar. Porque domingo é mais generoso. E a infância, então, nem se fala: não respeita data, só intensidade.
Amanda segurava tudo com leveza — como quem deixa a festa acontecer sem precisar anunciar que é ela quem sustenta. Pedro já com aquele ar de quem entende mais do que diz. Bernardo em estado puro de movimento. Valentina ampliando o quadro com a naturalidade de quem já pertence. E Edu ali, no meio, sem fazer esforço, sendo o motivo.
Eu, de canto, assistindo. Porque há dias em que o melhor papel é esse: testemunhar.
A gente fala muito de renascimento, mas esquece que ele acontece assim — sem trombeta, sem aviso prévio. Num domingo qualquer, entre um pedaço de bolo e uma risada fora de hora. Um filho crescendo diante dos nossos olhos, e a gente tentando, discretamente, acompanhar.
Se me pedissem uma definição de Páscoa, eu talvez não falasse de túmulos abertos nem de grandes metáforas. Falaria disso: de uma família reunida, de um aniversário adiantado, de um instante que, sem fazer alarde, se torna inesquecível.
Na foto, estamos todos ali. E isso basta.
Porque há dias em que a vida acerta. E quando acerta, não precisa explicar.