24/12/2021
As festas de fim de ano para muitos não são épocas tranquilas. Muito além das crenças de cada um, são momentos carregados de simbolismos, que atravessam nossas histórias e nos remetem ao nosso lugar e a nossa posição no mundo (muitas vezes porque nessas ocasiões somos colocados diante do olhar do outro).
Além disso indicam o fim de um ciclo, que precisa se encerrar para que outro possa nascer, se renovar. Indicam assim que o tempo, sim, o tempo passa.
Eis que dai surgem algumas questões: do que eu me orgulho de ter feito nesse ano que acaba? o que eu desejo para o próximo ano?
E basta apenas isso - que de apenas não tem nada- pra que a angústia se instale, pois escancara nossa dificuldade de admitir a finitude e assumir que só nós podemos dar sentido a nossa própria vida.
A renovação do desejo, porém, depende de um processo individual, que não se dá em um dia, nem está atrelada a um rito ou comemoração (assim como ninguém se torna adulto só porque completou 18 anos ou se torna mae apenas por parir um filho).
Portanto, tome teu tempo e respeite o tempo e o espaço alheio!
Por fim, finalizo com Drummond:
“Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver…”