08/12/2025
O humano na sua condição temporal
Na noite, a SPMS parecia feita de uma substância mais antiga do que paredes.
Havia algo de rito, algo de despedida e algo de nascimento — tudo ao mesmo tempo, como se o tempo tivesse suspenso a própria respiração para nos ouvir.
As luzes tremiam levemente, e o salão, mesmo pequeno, continha um mundo inteiro.
Porque, no fundo — e talvez só agora nos demos conta — tudo o que fizemos naquela noite, entre relatórios, agradecimentos, risos tímidos e microfones que insistiam em falhar, foi isso:
preservar o desejo de pensar, escutar, transmitir e sustentar o humano na sua novidade.
Essa novidade que nunca se repete, mesmo quando o cenário parece igual.
Essa que chega na forma de cinco novos colegas, de uma nova presidência, de uma nova novidade — ciclo que se abre como quem abre uma fresta no tempo.
Essa novidade que vive em cada análise, cada encontro, cada gesto que se faz sem alarde — mas com rigor, com ética, com a delicadeza firme que só a psicanálise conhece.
Pensar o humano:
como quem mergulha numa água funda, sem medo do escuro.
Escutar o humano:
como quem cede o próprio silêncio para que o outro encontre a própria voz.
Transmitir o humano:
como quem passa uma chama — sabendo que a chama não é de quem entrega, nem de quem recebe, mas do caminho que continua.
E sustentar o humano na sua novidade:
como quem sustenta um recém-nascido,
com cuidado,
com espanto,
com a coragem de saber que não sabemos.
Naquela noite, sem que ninguém precisasse dizer, todos entenderam:
a SPMS é isso — assim desejo —
uma casa que não envelhece porque acolhe o que é novo sem perder o que é antigo;
uma instituição que se move nas camadas invisíveis da vida psíquica,
Guiada por um desejo que não se gasta.
Desejo de pensar.
Desejo de ouvir.
Desejo de transmitir.
Desejo de sustentar o humano — sempre no instante em que ele recomeça.
E talvez essa seja a verdadeira herança da noite que vivemos:
o reconhecimento de que cada transição, cada presidência, cada geração
é apenas outra forma de continuar dizendo, com voz baixa e absoluta:
o humano continua — o humano continua — tragicamente, como a psicanálise demonstra —e nós continuamos com ela.
-Paulo Bacha