30/09/2021
E a gente fecha mais um setembro. Amarelo. Pesado. No alerta.
E segue discutindo saúde mental e prevenção ao suicídio.
O ano todo.
Porque é preciso.
Apesar do trabalho não ter sido realizado no consultório particular e sim no SUS, quero dividir essa experiência com vocês.
Começou assim: um adolescente entrou na sala visivelmente abalado.
Perguntei o que tinha acontecido, e ele me conta que em meio a uma discussão com sua mãe, os dois já alterados, ouviu:
- Você não devia ter nascido!
Acolhi aquele sofrimento, e em algum momento da sessão, pedi pra que ele listasse algumas outras coisas que ele já tinha ouvido, e que o marcou negativamente. Ele falou livremente sobre cada uma dessas situações. Era muita dor...
Sugeri que ele também deveria ter ouvido coisas na vida que tinham gerado impactos positivos. Ele me disse que sim, mas que não estava, naquele momento, disposto a falar dessas experiências. Estava bem entristecido e com raiva.
Na semana seguinte, sem que eu tivesse proposto, trouxe uma lista, com o mesmo número de itens da anterior, porém com falas bastante positivas. A frase favorita, um dia escutada, foi:
- Gosto tanto de conversar com você! Você sempre tem uma palavra certa pra me dizer!
Passei a adotar estas duas listas em algum momento dos meus atendimentos com os adolescentes.
Surgiram coisas fantásticas! Outras tristes...
Certa vez, um garoto excepcionalmente crítico, do alto dos seus 15 anos me disse:
- Fabio, essas frases ditas são importantes, mas tocam cada um de maneira diferente. Existem coisas que compartilhamos que ajudam ou atrapalham esse momento que vivemos. E são também importantes.
Perguntei que coisas seriam essas e ele me trouxe alguns marcadores socioeconômicos e culturais importantíssimos: exposição à violência, falta de lazer, machismo, racismo, lgbtfobia, desemprego, etc. Listou também o acesso à saúde e educação de qualidades, condições adequadas de moradia, pais apoiadores, rede de apoio, etc.
Impressionante, mas a gente acaba ficando tão focado nas questões psíquicas e fisiológicas, e acaba às vezes até esquecendo que estes também são marcadores, inclusive de suma importância, para a saúde mental (ou não).
Fui ao longo do acompanhamento destes jovens, coletando estes dados. Chamamos de críticas, elogios, facilitadores e dificultadores da adolescência.
Em dado momento veio a necessidade de fazer algo com estes dados valiosos. Surgiu então a ideia de criarmos, individualmente, um jogo de tabuleiro, bastante representativo de suas vivências.
Vários esboços: papel, aumenta o tamanho do papel, cartolina... Desenha? Pinta? Recorta e cola? Cada um deu e ainda está dando seu jeitinho, dando a sua cara, e registrando estes momentos múltiplos de suas vidas. Proporcionando. Realocando e reagenciando afetos. Contando novas histórias.
Mas ainda não estávamos contentes e resolvemos transpor este projeto para a "vida real" (sempre questiono estes termos: real, normal, nunca, etc). Para as atividades da semana do Adolescente e do setembro amarelo, montaríamos um tabuleiro gigante. E nós seríamos os peões que atravessariam todas as casas.
Para encurtar, assim o fizemos. Sem material (SUS e material na mesma frase é quase incompatível), traçamos as casas do tabuleiro no chão. Os peões: adolescentes, equipe da unidade, mães. Dado gigante e a sorte está lançada!
Após a partida, seguimos para uma extraordinária roda de conversa, com trocas importantes de impressões, experiências e afetos.
E que venham novas partidas!
Se alguém se interessar e/ou estiver curioso sobre mais detalhes, me procure no privado.