05/01/2026
Linda Vida Corações!
Estava aqui agora, preparando um rezo com o tabaco, e me veio com muita clareza a vontade de compartilhar um ensinamento. Um ensinamento simples, profundo e necessário, sobre o que representa quando uma pessoa entrega uma bolsa de tabaco à liderança — ao Homem ou Mulher Medicina, ao Ancião, ao Chefe. Sempre existe um propósito nesse gesto. Nada ali é vazio, automático ou simbólico apenas na superfície.
No caso que quero trazer aqui, é quando a pessoa oferece o tabaco dizendo, de coração aberto, que quer aprender com aquela liderança, que quer seguir aquele caminho, que deseja estar junto, fazer parte da família, aprender o modo de vida, o jeito de caminhar, de sustentar, de rezar e de servir. Quero compartilhar com vocês o que isso representa — para quem oferece, para quem recebe, e para o próprio Caminho.
Dentro do Caminho Vermelho, o tabaco é planta de reza, de palavra e de compromisso. Quando alguém entrega tabaco com essa intenção, está dizendo sem discursos:
“Eu me apresento inteiro.
Eu peço permissão para aprender.
Eu assumo responsabilidade pelo caminho que escolho trilhar.”
Isso não é um pedido de poder, nem de lugar, nem de reconhecimento. É um pedido de caminho. E caminho, aqui, não é teoria — é vida vivida.
Para quem oferece o tabaco, esse gesto marca uma passagem interna importante. A pessoa está dizendo que compreende que o aprendizado não acontece em aulas formais, nem em textos, nem em promessas. Ele acontece na prática, na presença, no fazer, no servir. É um aprendizado transmitido pela oralidade, pelo convívio, pela observação silenciosa, pelo sentir do campo, pelo erro e pelo acerto.
Entregar o tabaco com essa intenção traz compromissos muito claros: estar disponível para apoiar a liderança e a comunidade;
ajudar nas cerimônias, antes, durante e depois;
cuidar dos espaços, dos altares, do fogo, dos instrumentos;
sustentar o que precisa ser sustentado, inclusive quando ninguém vê.
Aprende-se fazendo. Aprende-se servindo. Aprende-se estando.
E há algo fundamental aqui: esse gesto também exige um trabalho profundo de desapego. A liderança não é um ideal a ser projetado. Não é perfeita, não é um salvador. No Caminho Vermelho, projeções não se sustentam — elas são queimadas no fogo da convivência real. O aprendizado verdadeiro começa quando a pessoa entende que o ensinamento aponta, mas quem caminha é ela mesma.
Para a liderança, receber o tabaco é uma grande responsabilidade espiritual. Não é honra pessoal, não é vaidade. É encargo. Ao aceitar o tabaco, a liderança assume diante do Grande Espírito o compromisso de cuidar daquele processo de aprendizado: ensinar no tempo certo, corrigir quando necessário, acolher, proteger, orientar e também confrontar, quando for preciso. O ensinamento não acontece só na palavra, mas no exemplo vivo, no modo de caminhar, de sustentar e de servir.
Quando alguém oferece tabaco dizendo que quer fazer parte, está também pedindo para adentrar a família do Caminho Vermelho. E família, aqui, não é conceito romântico. É modo de vida. É compromisso com a comunidade, com o fogo, com as cerimônias, com os cantos, com os instrumentos, com os altares, com os rezos, com tudo. Cuidar de tudo como quem cuida do que é sagrado — porque é.
Aprender isso requer escuta constante, presença real e uma disponibilidade verdadeira. Cada pessoa precisa sentir com honestidade: que disponibilidade eu tenho para esse caminho? Como posso estar presente? De que forma posso sustentar? Porque essa transmissão acontece no corpo, no campo, no tempo compartilhado. Não há atalho. Não há substituto para a presença.
E tudo isso segue vivo exatamente assim porque foi assim que me foi passado. E assim foi passado para quem passou antes de mim. É uma medicina que segue pulsando porque segue sendo honrada, respeitada e cuidada. Nada é inventado — tudo é transmitido com responsabilidade, com zelo e com amor profundo pelo Caminho.
Que quem se aproxime o faça com verdade.
Que quem entregue tabaco o faça com consciência.
E que quem ensine siga ensinando com integridade, humildade e presença.
Com respeito, verdade e coração desperto,
Sthan Xanniã Tehuantepeltl