18/04/2026
Havia uma cidade cercada por espelhos.
No centro dela vivia uma mulher chamada Lira. Desde muito pequena, ela aprendeu a se olhar nesses espelhos para descobrir quem era. Mas havia algo curioso: nenhum espelho refletia apenas seu rosto. Em cada um, havia também os olhos de outras pessoas.
No espelho da mãe, Lira parecia delicada e correta.
No do pai, forte e responsável.
Nos espelhos da cidade, bonita, bem sucedida, admirável.
Com o tempo, Lira passou a colecionar essas imagens. Costurou todas elas como se fossem partes de um vestido e passou a vesti-lo todos os dias. Era um vestido impecável , alinhado, coerente, admirado por todos.
E assim nasceu aquilo que ela chamava de “eu”.
Mas havia um problema.
À noite, quando a cidade silenciava e os espelhos escureciam, Lira ouvia passos vindos de um lugar sem nome. Era uma figura que não aparecia nos reflexos.
Essa figura não tinha forma fixa. Às vezes era uma criança chorando, às vezes um desejo estranho, às vezes uma raiva sem explicação. Outras vezes, surgia como um impulso inesperado, um erro, um esquecimento, uma escolha que ela não sabia justificar.
Lira tentava ignorá-la.
Apertava mais o vestido. Ajustava os espelhos. Reforçava a imagem.
Mas a figura insistia.
Um dia, cansada, Lira resolveu segui-la.
Ela atravessou a cidade, passou além dos espelhos e chegou a um território sem reflexos, um lugar onde não era possível se ver, apenas sentir.
Ali, a figura finalmente falou:
“Eu não sou quem você mostra. Sou o que em você não cabe no espelho.”
Lira tentou descrevê-la, dar nome, organizar… mas não conseguiu. A figura mudava, escapava, nunca se fixava.
Foi então que ela entendeu:
Seu vestido não era mentira — mas também não era tudo.
Os espelhos não eram falsos — mas eram incompletos.
E aquela presença inquieta… também era ela.
A partir desse dia, Lira não abandonou os espelhos, nem destruiu o vestido. Mas parou de acreditar que precisava caber totalmente neles.
Passou a viver com uma pergunta aberta, como quem caminha sem mapa.
E, às vezes, no meio do dia, deixava escapar um gesto, uma palavra ou um desejo que não combinava com sua imagem.
Era desconcertante.
Mas, pela primeira vez, também era vivo.