17/04/2017
"O mito de Cristo extrai sua força de realidades cruéis mas bem disfarçadas na existência do homem encouraçado. Em Cristo, o homem tem procurado, durante dois mil anos, a chave da sua própria natureza e de seu próprio destino. Em Cristo o homem descobriu a esperança da solução possível da tragédia humana. Cristo vinha sendo assassinado antes mesmo de ter nascido. E ele continua a ser morto todos os dias do ano em todas as horas do dia. O massacre continuará sem parar enquanto não se tiver compreendido de maneira total e concreta o destino de Cristo. O destino de Cristo representa o segredo da tragédia do animal humano.
Cristo devia morrer ao longo dos séculos e continua morrer porque ele é Vida. Existe, no passado como no presente, um ABISMO intransponível entre o sonho da Vida e a capacidade do homem de viver a VIDA. Cristo devia morrer porque o homem ama a Vida mais do que lhe permite sua própria estrutura. Ele é incapaz de receber a Vida tal como ela é criada por Deus, regida pelas leis da Energia Vital Cósmica [...]p.78
[...] Repetindo: a crucificação de Cristo foi o resultado da maneira de agir dos homens em geral e não a proeza de um grande sacerdote ou governante. O homem foi o responsável pelo que aconteceu, da primeira proclamação do papel messiânico de Cristo até seu último suspiro.
A crucificação de Cristo também não foi obra específica do povo judeu e de seus sacerdotes. A crucificação se produziu e se produz em muitos países. Ela é um assunto humano, e não especificamente judeu. A morte de Cristo nos apresenta simplesmente, de forma concentrada, aquilo que acontece por ai em pequenas doses, ou que submergiu no turbilhão da história, não tendo jamais chamado a atenção de um escritor ou de um historiador. Os sofrimentos dos recém-nascidos e das crianças pequenas, através dos séculos, são piores, e nunca encontraram quem os ouvisse ou escrevesse sua história. Aqui, ainda, é o grande público que carrega a responsabilidade do silêncio no fundo do qual está sepultada essa miséria. [...] p.188
O povo sempre prefere Barrabás, porque tem medo de Cristo e recusa-se compreende-lo. Permite sempre que Barrabás governe. Barrabás sabe como montar um cavalo branco, como empunhar uma espada; ele sabe passar em revista uma guarda de honra, sabe sorrir quando condecorado como herói desta ou daquela batalha. [...] p.202
Mas os homens encouraçados não podem deixar de ver tudo vermelho quando percebem Cristo no corpo. Pois Cristo é o que eles perderam e o que eles desejam com um ardor doloroso, durante toda a vida, o que eles deveriam esquecer pra sempre. Cristo é o amor perdido, a esperança esquecida há muito tempo. Ele é o frêmito de doçura que apavora suas carnes frias, de onde só saem ódio e raiva, mas nem um só momento de piedade pela face silenciosa e dolorosa de Cristo. Por isso eles reservam a cruz para Cristo e não para Barrabás.[...] p.203
Recortes do livro O Assassinato de Cristo, de Wilhelm Reich, para um dia tão simbólico como hoje.
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