16/02/2026
Ser ou não ser? Quero a falta a ser!
Amélia Sayuri
Eu queria escrever um poema.
Mas quando fui até a geladeira,
comeram o último pedaço de pizza.
Quando busquei a garrafa térmica,
não restava uma única gota de café.
Quando sentei no sofá e a ponta da caneta ia alcançar o papel,
a luz acabou.
E quando mergulhei nos meus pensamentos,
encontrei o silêncio das palavras:
uma ausência de mim mesma.
Muitos pensamentos,
mas a palavra poética
estava muda,
me desobedecia.
O tédio, então, ocupou o espaço.
A falta cresceu, devorando a folha em branco,
até que o sem-sentido
começou a cair feito chuva fina no papel.
Era o corpo me convocando:
cada gota de chuva,
cada gota de tinta da caneta,
o gesto das mãos
sentindo a caneta,
romperam o tédio
manchando as palavras presas na coleira da linguagem,
desafiando as palavras infantis recheadas de algodão-doce.
Quero o movimento livre: molhar palavras, retirar o açúcar delas.
Não me importa o sentido.
Aqui, as palavras pulam amarelinha,
querem alcançar o céu.
Qual céu?
O céu estrelado, o céu azul-piscina
onde as letras boiam,
sem o embrulho de fast-food.
Palavras em slow motion,
tão lentas que escapam das amarras do tempo,
fazendo barulho de garoa.
Nesse instante, inverto a amarelinha:
do Infinito, volto ao Início.
E o Início é o próprio Infinito,
pois encontro a possibilidade de nascer.
De florescer a cada gota de chuva que molha a terra:
Rosa de Silesius
De poemar a cada gota de tinta que molha o papel:
palavras claricianas.
Qual é o começo?
O germinar da semente?
O óvulo encontrando o espermatozoide?
O pai desejando uma filha princesa?
O parto?
O instante em que minha mãe me adota em sua loucura amorosa?
Ou
quando traio a minha criança, renasço outra.
Dentro do tédio.
Amo o tédio.
A identidade me deixa infeliz:
sua forma excessiva
tem o tamanho de uma bailarina de uma caixa de música,
girando toda vez que alguém dá corda.
A corda do outro me enforca.
Enquanto muitos buscam os prazeres e os likes da repetição,
eu questiono a origem da minha identidade.
É no ritmo da palavra muda,
naquilo que nada diz,
naquilo que está distraído,
atraindo um novo ritmo,
um novo pa