29/01/2026
Hoje a dica da psi é dupla: livro e filme!
Mas já aviso que esta não é uma história confortável. E talvez esse seja exatamente o ponto: nos incomodar.
A história é narrada pela mãe, que escreve cartas revisitando a maternidade, a infância e a adolescência de Kevin que, desde muito cedo, parece deslocado, hostil e indiferente aos vínculos afetivos. Falando em psicologia, o livro escancara temas que costumam ser silenciados muitas vezes.
Eva, a mãe, vive uma maternidade ambivalente. Há culpa, rejeição, frustração e um luto constante pela vida que ela perdeu ao se tornar mãe. O livro confronta o mito do amor materno incondicional e mostra como a falta de identificação com o papel materno pode gerar sofrimento psíquico profundo. Eva oscila entre a auto responsabilização excessiva e a tentativa de compreender se havia algo, desde o início, que escapava ao seu controle.
Já o pai representa a negação. Ele minimiza os sinais, idealiza o filho e invalida as percepções da mãe. Psicologicamente, ocupa um lugar permissivo e ingênuo, contribuindo para a dinâmica familiar disfuncional ao não sustentar limites claros e ao desacreditar a experiência emocional de Eva.
Kevin é construído como uma criança que desafia explicações simples. Frio, manipulador e provocativo, ele levanta questões complexas sobre personalidade, psicopatia, vínculos precoces e responsabilidade. O livro não oferece respostas fáceis: Kevin é produto do ambiente? De uma estrutura psíquica específica? Ou da combinação dolorosa entre ambos?
Talvez o grande mistério da obra seja nos obrigar a pensar que nem todo sofrimento infantil é visível, nem toda maternidade é construída facilmente e nem toda violência nasce “do nada”.
“Precisamos falar sobre Kevin” não é apenas sobre um ato extremo, mas sobre silêncios familiares, falhas de escuta, idealizações parentais e o quanto evitamos olhar para aquilo que nos assusta.
Já leu ou viu o filme?
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Psicóloga Fernanda de Camargo
Especialista em psicologia clínica, com aperfeiçoamento em psicologia perinatal e da parentalidade.
CRP/PR - 08/15834