11/02/2026
A relação entre pais e filhos — ou entre a criança e aqueles que exercem a função de cuidado — ocupa um lugar fundamental na constituição psíquica. É nesse primeiro vínculo que se organizam as referências de amor, reconhecimento e diferença.
Para Freud, o complexo de Édipo não é apenas uma fase da infância, mas uma operação estruturante. Nele, a criança direciona seu investimento afetivo aos pais e, ao mesmo tempo, se depara com a interdição e o limite. Ao compreender que não pode ocupar todos os lugares nem possuir exclusivamente o objeto amado, ela entra em contato com a experiência da falta — condição essencial para que o desejo se amplie para além do núcleo familiar.
Quando uma criança diz que, no futuro, quer se unir a alguém “como” o pai ou a mãe, isso não deve ser entendido literalmente. Trata-se de uma referência identificatória. Os cuidadores tornam-se o primeiro modelo do que significa amar e ser amado. Essa vivência inicial deixa marcas que reaparecem nas escolhas afetivas da vida adulta — não como cópias exatas, mas como traços de familiaridade que organizam o campo do desejo.
A travessia edípica também envolve reconhecer um limite: o amor infantil encontra uma barreira, pois a criança precisa aceitar que não ocupa o lugar de parceiro privilegiado do pai ou da mãe. Essa renúncia é o que possibilita a separação psíquica e a abertura para novos vínculos.
A qualidade dessa experiência — marcada por presença, ausência, excesso ou distância — constitui uma matriz inconsciente que influenciará, mais tarde, a forma como o sujeito buscará reconhecimento, cuidado e validação. Amar alguém “como” um dos pais não significa repetir a infância, mas carregar as marcas inevitáveis dos primeiros laços que ensinaram o que é vínculo, desejo e diferença.