14/02/2026
SOBRE O CASO DOS ASSASSINATOS EM ITUMBIARA
(Algumas das minhas reflexões)
“Deus me proteja da maldade de gente boa.”
A frase, presente na canção “Deus Me Proteja”, interpretada por Chico César, é profundamente irônica.
Ela denuncia algo muito humano: pessoas que se apresentam como corretas, morais, “de bem” — mas que, diante da frustração, revelam violência, posse e destruição.
Como psicóloga, eu gostaria de trazer um ponto que talvez esteja passando despercebido nas discussões sobre o caso recente de Itumbiara (GO).
Quando um crime acontece, especialmente um crime brutal, as pessoas tendem a buscar explicações que se aproximem da própria experiência.
E aqui existe um fenômeno psicológico importante:
Existem muito mais pessoas que já foram traídas do que pessoas que já cometeram um assassinato.
Então, inconscientemente, muitos se identificam mais com a dor da traição do que com a gravidade do homicídio.
Isso faz com que o foco da discussão seja ERRONEAMENTE deslocado.
Em vez de permanecer no fato objetivo — houve um assassinato — a conversa migra para especulações:
“Mas será que ela traiu?” “Mas o que ela fez?” “Mas ele estava sofrendo…”
Percebe o risco?
Quando alguém mata, a única responsabilidade objetiva é de quem matou.
O restante são hipóteses, projeções e, muitas vezes, tentativas de encontrar justificativas emocionais para algo que não tem justificativa.
Historicamente, o Brasil já legitimou esse tipo de racionalização. Durante décadas existiu a chamada tese da “defesa da honra”, utilizada para atenuar ou absolver homens que matavam suas companheiras sob alegação de traição.
Isso nos mostra que essa cultura não é antiga por acaso. Ela é estrutural.
Outro ponto que tenho visto, nas falas:
“As crianças não tinham nada a ver com isso.”
Concordo. Mas é preciso cuidado com essa frase.
Porque, às vezes, ela carrega uma ideia implícita perigosa: como se, se fosse “só” a mulher, a indignação fosse menor. E isso se comprova nos comentários mais diretos (esses eu resolvi nem comentar porque muito já tem sido falado sobre).
É importante deixar claro que inguém tem “a ver” com ser assassinado. Não existe justificativa para matar ninguém.
Crimes como esse não falam sobre traição. Falam sobre incapacidade de lidar com frustração. Falam sobre sentimento de posse. Falam sobre controle. Falam sobre violência como resposta ao ego ferido.
E é justamente aí que a música ecoa:
“Deus me proteja da maldade de gente boa.”
Porque o perigo não está apenas no “monstro”. Está no sujeito socialmente adaptado, moralista, que acredita que sua dor autoriza a destruição do outro.
Eu acredito que precisamos deslocar o foco: menos especulação, menos projeção, menos culpabilização da vítima, e mais responsabilidade clara sobre quem comete o ato.
Violência não é reação. É escolha.
Autora: .deborahduarte