26/12/2025
Na história de Hamlet, Ofélia é lembrada como a jovem frágil que enlouquece depois de ser rejeitada. Mas essa é só a superfície.
Ofélia vive cercada de ordens,
Ela nunca escolhe.
Ela apenas obedece.
Ela se anula;
Quando alguém vive apenas para corresponder, o próprio desejo vai sendo apagado.
Quando tudo desmorona ao seu redor, Ofélia não tem onde se apoiar.
Ela nunca construiu um lugar próprio. Sempre existiu a partir do olhar dos outros.
Ela não é sujeito do desejo. É objeto do desejo do Outro.
Ofélia não enlouquece porque Hamlet a abandona.
Ela enlouqueceu porque, não pôde desejar, não pôde escolher e não pôde se separar.
O colapso vem quando o Outro falha e ela não tem um “eu” onde se apoiar.
A tragédia de Ofélia não é sensibilidade demais. É ter sido ensinada a não existir.
A sina de Ofélia não aparece como excesso de amor, mas como falta de lugar. Surge em pessoas que aprenderam cedo a silenciar o que sentem para manter vínculos, a se moldar para não perder o outro, a existir mais para corresponder do que para escolher.
São vidas marcadas por uma tristeza discreta, um cansaço emocional que não faz barulho, até que o corpo começa a falar aquilo que nunca pôde ser dito. Quando o outro falha, se afasta ou decepciona, tudo desmorona — porque nunca houve um chão próprio. Ofélia não se perde por amar demais, mas por ter sido ensinada a desaparecer.
Ofélia não é apenas uma personagem trágica. Ela é o retrato de quem vive sem lugar próprio.
Toda história como a de Ofélia nos lembra de algo essencial: quem não pode desejar,
acaba se perdendo de si.