02/04/2026
Ao longo da minha atuação como psicóloga perita, já estive implicada em mais de uma centena de processos judiciais. À primeira vista, esse número pode sugerir apenas volume de trabalho, mas, na prática, ele marca um percurso.
Cada perícia não se reduz a um procedimento técnico repetível. Trata-se, antes, de um encontro com uma história, com um conflito, com versões em disputa e, muitas vezes, com o sofrimento que escapa às narrativas formais do processo. Ao atravessar diferentes casos, o que se acumula não é apenas experiência, mas um refinamento progressivo da escuta, da escrita e da própria posição enquanto perita.
Se, no início, havia um esforço maior em sustentar o método, compreender os limites da função e responder de forma adequada às demandas judiciais, com o tempo essa prática vai se transformando. A técnica deixa de ser um apoio externo e passa a operar de forma mais integrada, permitindo maior liberdade para escutar o que, em cada caso, se apresenta como singular.
Mais do que responder a quesitos, a atuação pericial exige sustentar uma posição ética diante do que não é evidente, do que é contraditório e, muitas vezes, do que não se deixa concluir de forma simples. E é justamente nesse ponto que a experiência faz diferença: não como garantia de respostas mais rápidas, mas como condição para tolerar melhor a complexidade sem recorrer a simplif**ações.
Ter atuado em mais de 100 processos não signif**a saber tudo, nem eliminar dúvidas. Pelo contrário, muitas vezes amplia a percepção sobre o quanto cada caso escapa a modelos prontos. O que se constrói, então, não é uma prática automatizada, mas uma posição mais consistente diante do trabalho, uma forma de sustentar a escuta, mesmo quando não há respostas imediatas.
Assim, o número deixa de ser um indicador de quantidade e passa a marcar um percurso de elaboração. Um percurso em que cada caso, longe de ser apenas mais um, participa da construção de uma prática que se torna, ao longo do tempo, mais ética, mais precisa e mais implicada.