18/03/2022
Re-atualizações Inconscientes
Joanna Carolina Ramalho e Oliveira Martins
Inconsciente. Tanto se ouve falar. Mas, afinal, o que é exatamente esse inconsciente? O que é a re-atualização inconsciente que se encontra em textos de psicologia acerca das vivências maternas? Quando e como ocorrem?
As nossas vivências f**am registradas no inconsciente. De alguma forma o que foi vivido não se perde. O que experimentamos em nosso corpo, o que sentimos via nossos órgãos dos sentidos, desde a mais tenra idade, f**a armazenado em nós, em forma de registros, por vezes sutis.
O termo Inconsciente já fora utilizado por cientistas e filósofos e refere-se ao que não pertence ao consciente. Freud (1915) atribuiu ao termo um caráter psíquico, abrangendo "tudo que se passava no plano desconhecido da mente aos mistérios do corpo, da alma e do espírito." Diz respeito ao local onde encontra-se todo o conteúdo que fora reprimido, em função de algo ameaçador, ou traumático (ou seja, que excedeu a capacidade psíquica do indivíduo para dar conta), e, também, todo conteúdo que não fora sequer representado, isto é, que não possui nem possuiu signif**ado, não foi entendido, nomeado, percebido de forma consciente; tudo aquilo que apenas fora sentido e experimentado por meio de percepções e do sensório, mas que permaneceu sem ligação, sem compreensão.
No início da vida sentimos no corpo; através dele vivenciamos e absorvemos o mundo. Somos apresentados ao mundo por nosso(s) primeiro(s) cuidador(res). Passamos a adquirir conhecimentos e registros do que ocorre ao nosso redor, já desde o ventre materno. Não em forma concreta, tal qual é a realidade, mas a partir de nossas percepções, do que absorvemos dela. Portanto, nem sempre se trata de registros tal qual aconteceram, mas como foram percebidos, sentidos emocionalmente. Embora a percepção do bebê seja apurada, e ele possa captar o que ocorre a sua volta, não possui entendimentos para decifrar ou digerir o que absorve. Registra o que sente, o que percebe. Mas, necessita de seu cuidador efetuando a função materna de traduções, cuidados e acolhimentos.
Porém, desde muito cedo, o bebê é capaz de perceber a "atmosfera", os "climas" emocionais, as tensões ambientais, as intenções de cuidados, os medos, angústias e/ou satisfações. Estas percepções ocorrem por via sensorial e comunicações inconscientes, e os registros destas são armazenados sob a forma de traços mnêmicos (Freud), pictogramas (Lagner), permanecendo ocultos no inconsciente, sem necessariamente possuir representação. Traços mnêmicos referem-se ao registro puro, sem carga emocional, sem haver a ligação da sensação a uma representação. Está relacionado à forma como os estímulos se inscrevem na memória.
Um observador atento e disponível emocionalmente para se conectar com o bebê, com as emoções dele e suas próprias, pode descobrir que o bebê percebe o mundo e comunica desde sempre. Ele possui competências, e é "uma criatura inventiva criador de sentidos e de interação com os outros - através de gestos, de expressões faciais, às vezes pela voz, mesmo se ele ainda não fala a língua." Segundo Trevarten (2019), os bebês possuem motivações nas trocas comunicativas e aspiram a projetos com uma história, desde antes de nascerem. Eles "provocam" o seu interlocutor a continuar a fazer com ele um diálogo. Os bebês diversas vezes nos traduzem acerca do que ocorre com ele e com sua mãe, com seu cuidador. Nos fornecem sinais quando algo não vai bem, sendo capazes de buscar a conexão de sua mãe e, por vezes, por meio desta, fazê-la se conectar com ele e com a vida.
As situações vividas desde à época em que éramos bebês permanecem em nós. Podem passar muitos anos despercebidas e um dia serem acionadas em determinada situação, que por ventura conecte à sensação da vivência anterior armazenada. Isso comumente ocorre na maternidade/paternidade, mas também pode acontecer em diversos momentos ao longo da vida, especialmente naqueles em que nos encontramos mais regredidos emocionalmente, como por exemplo: quando passamos por cirurgia ou nos encontramos enfermos; quando estamos passando por adversidades na vida; quando estamos diante de novos desafios ou mudanças relativas ao ciclo vital; quando nos sentimos de algum modo ameaçados em nossa integridade emocional ou em lugares externos e relacionamentos interpessoais; quando um novo membro chega na família, ou quando se perde um ente querido, etc.
O inconsciente é atemporal. Famosa afirmação psicanalítica, extremamente atual e verdadeira, é bem conhecida dos analistas e psicólogos que atuam com base nesta teoria e explica porque algo que fora vivido, por exemplo, nos primórdios de nossa existência, pode ser sentido como sendo atual e concreto, vivido intensamente quando reatualizado por situações no tempo presente, mesmo "não fazendo sentido" no que se refere às vivências do atual tempo.
Durante a maternidade/paternidade, e de forma bastante visível no início desta, existem momentos em que emoções difíceis ou desconhecidas irrompem de forma extrema ou demasiada, sem fazer um "sentido" com a realidade. Mas, mesmo não fazendo "um sentido", possuem sentido, e a emoção é experimentada de forma intensa, real e atual, devendo portanto ser olhada, respeitada e cuidada. Muitas mães, por exemplo, já se perceberam tristes, ou com sentimentos de raiva, de desamparo ou de impotência extremos, e sem relação condizente com o momento ou a realidade que estão vivendo. Estes sentimentos podem estar relacionados com outros acionados, a partir de algo que fez um link com situações já vividas, mesmo as que não tiveram representação no psiquismo.
Para exemplif**ar, menciono a situação de quando um luto é re-atualizado. A perda vivida pode ter acontecido há muito tempo, mas quando uma outra perda ou situação aciona as lembranças armazenadas da perda anterior, esta vem à tona no momento presente, com a intensidade de dor do momento acontecido, precisando de palavras e vivências que a esclareçam, e tempo para viver o luto acionado. Uma mãe, por exemplo, ao lidar com a separação de seu filho quando este sai de casa para ter sua independência e viver sua vida adulta, encontra-se extremamente mobilizada e entristecida, em luto profundo por esta perda, como se nunca mais fosse vê-lo. A mudança em si necessita de um luto, mas a sensação de perda está potencializada: sua dor imensa diz respeito, na verdade, a uma separação definitiva por morte que precisou enfrentar em momento anterior de sua vida, cujo luto não pode ser feito. Porém, a dor, mesmo sendo sentida em outro tempo, é relevante, devendo ser respeitada e vivida para ser elaborada, a fim de possibilitar, assim, a continuidade do aproveitamento de momentos bons na vida.
Durante toda a vida esses “links” podem ocorrer e necessitam ser desvendados a fim de que não prejudiquem tanto o desenrolar desta. Jamais serão totalmente evitáveis, mas podem ser compreendidos e passarem a ser sentidos de acordo com a realidade atual (e não a re-atualizada), por meio de uma psicoterapia.
Uma psicoterapia de base analítica fornece auxílio no desvendar desses sentimentos re-atualizados e no desenrolar da vida, possibilitando o viver com menos sofrimentos e de forma mais promissora.
Referência Bibliográf**a
AULAGNIER, P. C. (2001). Lá violência de lá interpretacion: dela pictogramas al enunciado. Buenos Aires: Amorrortu.
FREUD, S. (1914/1916). Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros trabalhos O inconsciente (1915). In: Obras Completas, 2010, v.XXII, São Paulo: Editora Companhia das letras.
TREVARTHEN, C., AITKEN, K & GRATIER, M. (2019). O bebê nosso professor. São Paulo: Instituto Language.
ZIMERMAN, D. E. Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise. (2001). São Paulo: Artmed.
Foto encontrada na internet.