23/04/2026
Quando a gente vivencia de perto o sofrimento de alguém muito amado, algumas perguntas deixam de ser teóricas. Elas passam a ter corpo, rosto, cheiro de hospital, ruído de aparelhos, noites mal dormidas, uma série de sentimentos difíceis de nomear e muitas (muitas!) perguntas.
Talvez uma das mais duras seja esta: em nome de quê prolongamos tanto certos processos, claramente dolorosos e irreversíveis? Em nome do amor. Do medo. Da culpa. Da dificuldade de soltar. Da fantasia de que manter funções biológicas é o mesmo que preservar vida com sentido.
Nem sempre é.
Falar sobre limite terapêutico, proporcionalidade e qualidade de vida continua sendo desconfortável para muita gente. Mas fugir dessa conversa costuma custar caro. Quase sempre custa muito sofrimento de todos os lados.
A medicina virou um grande "hype" (para usar a linguagem contemporânea) de ilusões.
É certo que a ciência avança (a medicina também).
É certo que muito da longevidade que chegamos também se deve a isso.
Com tantos tratamentos, dos antibióticos aos oncológicos, dos cirúrgicos aos genéticos, é certo que hoje em dia a medicina faz mais do que nunca antes.
Mas não faz tudo.
Não faz milagre. Aliás, me dá arrepios quando as pessoas falam dos "milagres da medicina". Isso é marketing, é fake, no máximo é "uma forma de falar" um tanto atravessada.
Milagre é de outra dimensão. Muito respeitável. Mas não é disso que eu to falando aqui.
Estou falando que, a despeito de tanto que se caminha na evolução da ciência, algumas coisas continuam acontecendo por serem eminentemente humanas: envelhecemos, adoecemos e morremos.
E mesmo isso sendo muito claro, imposto pela realidade da vida, a gente não aprendeu a Cuidar (com C maiúsculo) desses processos.
Nos foi vendida uma luta infinita, uma negação eterna, uma falta de olhar expandido para a situação.
O que se ganha com isso? Quem ganha com isso?
O que se perde com isso? Quem perde com isso?
Sigo achando que uma das tarefas mais humanas e mais difíceis dentro do processo de cuidar é esta: aprender a amar sem transformar esse amor em prisão, onde muitas vezes, todos estão presos mesmo que alguém esteja com a chave na mão.
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