31/10/2025
Tantas são as camadas que nos atravessam enquanto sociedade…
Enquanto psicóloga, eu poderia aqui tecer uma longa análise sobre cada uma dessas camadas, o peso simbólico, histórico e afetivo que nos constitui e nos atravessa.
Mas enquanto sujeito, enquanto alguém que sente e que também é atravessado por tudo isso, me faltam palavras.
Há um silêncio que não é de paz.
Há um barulho que não é de música, é o som dos tiros, do choro, do desespero.
É uma vida que cai, e outra que ferida, ainda tenta respirar.
É o eco da culpa, do medo, da raiva, ressoando pelo morro quando o Estado sobe armado e desce sem respostas.
O discurso oficial diz: “a operação foi um sucesso”.
Mas eu devolvo: defina sucesso, senhor.
A mãe que enterra o filho conhece o significado da ausência.
A criança que cresce órfã entende o que é a falta.
A família precisará reconstruir-se no meio do trauma, encontrar forças onde já não há chão.
E o povo? O povo resiste, aliás já nasce com o sobrenome “resistência”. Porque, muitas vezes, resistir é a única forma possível de existir.
Cada corpo no chão é uma denúncia silenciosa de que a lei não é para todos.
De que, nessa hierarquia cruel das existências, há vidas que parecem valer menos.
A favela é o espelho mais honesto de um país que ainda não elaborou seu racismo, sua desigualdade, seu pacto de exclusão.
A cada massacre, o que morre não é apenas uma pessoa, morre um pouco mais da nossa capacidade de acreditar que somos uma sociedade.
Do alto do Corcovado, o Cristo permanece de braços abertos.
Não mais apenas como ícone de fé, mas como testemunha muda de uma cidade que sangra em silêncio.
Se o Estado cala, o Cristo chora.
E o povo, em sua dor, inventa linguagem.
Que o luto se transforme em palavra.
Que o silêncio se transforme em grito.
E que o grito, um dia, seja escutado.
Que nunca lhes falte esperança e fé!
Camila Araújo
Psicóloga