17/06/2025
Em janeiro de 1847, uma jovem de apenas 23 anos agonizava sozinha em Paris. Seu nome era Marie Duplessis.
Rainha das cortesãs, musa dos salões e símbolo de uma era, ela morreria de tuberculose — a doença silenciosa que assombrava o século XIX. Sua vida breve, marcada por brilho e tragédia, inspiraria obras eternas: A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, e La Traviata, de Giuseppe Verdi.
Marie Duplessis nasceu como Rose Alphonsine Plessis, em 15 de janeiro de 1824, na pobreza brutal da Normandia. Filha de um vendedor ambulante alcoólatra, sua infância foi feita de violência, negligência e desilusão. Aos 14 anos, o pai a vendeu para um homem que a levou a Paris. Lá, começou esfregando roupas em uma lavanderia por um salário miserável.
Analfabeta e sem perspectivas, Marie só tinha uma coisa a seu favor: uma beleza hipnotizante. Cabelos escuros, olhos negros profundos, uma pele clara que parecia feita de porcelana. Rapidamente, percebeu que homens ricos estavam dispostos a pagar caro pela sua presença. E ela soube negociar.
Sonhava com mais. Queria se tornar uma “grisette”, uma mulher que circulava nos cafés, nos teatros e nos ateliês boêmios, servindo de musa e amante. Era o primeiro degrau de uma ascensão que ela construiu com inteligência, charme e sangue-frio.
Economizou centavo por centavo para parecer refinada: um vestido de seda modesto, um chapéu que escondia o rosto, botas elegantes. Logo se tornou uma “lorette”, cortejada por vários homens influentes, chamada de “deslumbrante” e “irresistível”. Aos 16 anos, já era uma figura conhecida nos salões de Paris.
Um dos primeiros homens a sustentá-la foi M. Nollet, dono de um restaurante, que lhe deu um apartamento e três mil francos. Quando ele não pôde mais sustentá-la, ela não hesitou: encontrou outro. Depois outro. E outro.
Até que conheceu Agenor de Guiche, futuro Duque de Gramont. Ele a transformou em sua amante principal, incentivando-a a adotar o nome mais elegante de Marie Duplessis. Ela engravidou dele aos 17 anos. O filho morreu pouco depois do nascimento. Marie chorou, mas não parou. Ela nunca podia parar.
A relação com de Guiche terminou quando ele se casou com uma nobre escocesa. Mas a experiência com a aristocracia moldou Marie. Aprendeu a falar com elegância, a se portar como dama, a se vestir como uma duquesa. Todos os dias recebia ramos de camélias — símbolo de sua imagem. Nascia a “Dama das Camélias”.
Marie refinou sua persona com perfeição. Frequentava os restaurantes mais caros, os cassinos mais exclusivos, os círculos intelectuais mais prestigiados. Era presença certa entre artistas, músicos e nobres. Ao mesmo tempo, escondia outra faceta: generosa, ajudava órfãos, acolhia mulheres desprezadas, estendia a mão a quem caía — talvez vendo nelas a si mesma.
Ainda assim, não escapava às críticas. Chamavam-na de mentirosa, manipuladora. Quando a confrontavam, ela respondia com ironia:
“Mentir clareia os dentes.”
Entre seus amantes estavam o Conde de Stackelberg, o pianista Franz Liszt e o Conde Edouard de Perregaux, com quem chegou a se casar em Londres — embora o casamento não tenha sido reconhecido na França.
Em 1844, viveu um romance com Alexandre Dumas Filho, breve e intenso. Dumas não podia sustentá-la, mas jamais a esqueceu. Dois anos depois, transformou Marie na he***na do romance que comoveu a Europa.
Mas o tempo corria rápido, e a doença avançava mais rápido ainda.
A “praga branca”, como chamavam a tuberculose, consumia Marie. Tentou de tudo, gastou fortunas, viajou em busca de cura. Nada funcionou.
Em 1846, casou-se com o Conde de Perregaux numa tentativa de encontrar segurança. De volta a Paris, já era tarde. Em fevereiro de 1847, fraca e quase esquecida, morreu em um quarto, cuidada apenas por uma criada e alguns médicos. Tinha apenas 23 anos.
Seu funeral no cemitério de Montmartre reuniu uma multidão em silêncio. Poucos sabiam dizer se choravam por ela, por si mesmos ou por tudo o que Marie representava: beleza, dor, ambição e a fragilidade de quem tenta sobreviver ao mundo com os próprios encantos.
Hoje, séculos depois, Marie Duplessis vive na arte — nas palavras de Dumas, nas partituras de Verdi, na memória de um tempo em que até as flores mais raras murchavam cedo demais.
Ela morreu jovem, mas deixou um perfume que jamais se dissipou.
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