Aline Veiga - Psicóloga Clínica & Psicanalista

Aline Veiga - Psicóloga Clínica & Psicanalista Psicóloga/Psicanalista

05/05/2026

Como em outros livros, Édouard Louis escancara o peso das condições sociais sobre uma vida. E, ainda assim, permanece a pergunta sobre o que cada sujeito faz com isso.

Assisti a esse filme que vem sendo muito comentado, The Drama, de Kristoffer Borgli, e saí inquieta. Tratei de ler um po...
25/04/2026

Assisti a esse filme que vem sendo muito comentado, The Drama, de Kristoffer Borgli, e saí inquieta. Tratei de ler um pouco e de escutar o que vinha sendo dito sobre ele. Em algumas leituras, a proposta de uma chave capaz de apaziguar o que o filme apresenta, situando a violência das ideias da personagem principal no interior de uma história maior, atravessada, entre outras coisas, por dimensões sociais e raciais que não podem ser ignoradas. E, de fato, essa dimensão está ali, atravessa a história e dá todo um contorno a ela.

O que mais se destacou pra mim não foi tanto a origem da violência, mas o momento em que nos vemos diante dela, quando algo dessa ordem pode se inscrever como possibilidade.

Quando a personagem revela o que planejou aos 15 anos, não entra em jogo apenas a sua história, mas também o encontro com o que escapa a uma explicação suficiente, algo que não se reduz completamente a um contexto, por mais necessário que ele seja.

A psicanálise, como sempre, pode ajudar a pensar esse ponto sem apressar uma saída. Não se trata de negar a violência sofrida nem de relativizá-la, mas de reconhecer que há um momento em que o sujeito se vê diante do que faz com isso. E esse ‘fazer com’ não é garantido por nenhuma teoria.

Se, por um lado, é evidente que a realização de um ato como o que foi planejado teria um peso irreparável, por outro, o filme permite tocar esse ponto que é anterior e igualmente decisivo: o momento em que algo dessa ordem pôde se inscrever como possibilidade.

Enfim, eu ainda nem sei se gostei desse filme. Mas entre tantos recortes possíveis, foi isso que ficou pra mim: o intervalo entre o que se sofre e o que se faz com isso.

Assisti a esse filme que vem sendo muito comentado, The Drama,  de Kristoffer Borgli, e saí inquieta. Tratei de ler um p...
25/04/2026

Assisti a esse filme que vem sendo muito comentado, The Drama, de Kristoffer Borgli, e saí inquieta. Tratei de ler um pouco e de escutar o que vinha sendo dito sobre ele. Em algumas leituras, a proposta de uma chave capaz de apaziguar o que o filme apresenta, situando a violência das ideias da personagem no interior de uma história maior, atravessada, entre outras coisas, por dimensões sociais e raciais que não podem ser ignoradas. E, de fato, essa dimensão está ali, atravessa a história e dá todo um contorno a ela.

O que mais se destacou pra mim não foi tanto a origem da violência, mas o momento em que nos vemos diante dela, quando algo dessa ordem pode se inscrever como possibilidade.

Quando a personagem revela o que planejou aos 15 anos, não entra em jogo apenas a sua história, mas também o encontro com o que escapa a uma explicação suficiente, algo que não se reduz completamente a um contexto, por mais necessário que ele seja.

A psicanálise, como sempre, pode ajudar a pensar sem apressar uma saída. Não se trata de negar a violência sofrida nem de relativizá-la, mas de reconhecer que há um momento em que o sujeito se vê diante do que faz com isso. E esse ‘fazer com’ não é garantido por nenhuma teoria.

Se, por um lado, é evidente que a realização de um ato assim - planejado pela protagonista - teria um peso irreparável, por outro, o filme permite tocar esse ponto que é anterior e igualmente decisivo: o momento em que algo dessa ordem pôde se inscrever como possibilidade.

Enfim, eu ainda nem sei se gostei do filme, mas entre tantos recortes possíveis, foi isso que ficou pra mim: o intervalo entre o que se sofre e o que se faz com isso.

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever.”– Clarice Lispector, A Hora da EstrelaPelo D...
23/04/2026

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever.”
– Clarice Lispector, A Hora da Estrela

Pelo Dia Mundial do Livro, hoje📖

Faz uma semana que a gente falou de O Acontecimento, de Annie Ernaux. Ainda estou nisso.O livro acompanha a busca por um...
18/04/2026

Faz uma semana que a gente falou de O Acontecimento, de Annie Ernaux. Ainda estou nisso.

O livro acompanha a busca por um ab**to na França dos anos 60, quando isso era ilegal. Uma jovem estudante, praticamente sem apoio, passando por consultas, recusas, tentativas, até encontrar um caminho possível.

Ao longo da leitura, o foco vai se deslocando, não f**a só no ato. A clandestinidade vai se impondo - o medo, os riscos no corpo, o que precisa acontecer sem poder ser dito, o julgamento antes de qualquer palavra - ab**to é, aliás, uma palavra que nem chega a ser dita, e isso vai tomando o centro. Tem algo muito preciso na posição dela ali. A decisão de não ter aquele filho não vacila, mesmo atravessada pelo que estava em jogo no próprio corpo. Por outro lado, talvez seja justamente pelo que estava em jogo em outro plano que algo da ordem do desejo se sustenta. Algo se corta. “Matei minha mãe em mim.”

A escrita de Annie Ernaux, como sempre, não se separa da vida.

Tecendo Palavras, coordenado por

Saí do cinema com uma pergunta que atravessa La Grazia, de Sorrentino, e funciona quase como um norte da narrativa, mas ...
04/04/2026

Saí do cinema com uma pergunta que atravessa La Grazia, de Sorrentino, e funciona quase como um norte da narrativa, mas também da nossa: de quem são os nossos dias?

Ela retorna ao longo da história, acompanhando Mariano De Santis (Tony Servillo), um homem atravessado por dúvidas e dilemas, diante de decisões que não são simples nem limpas, decisões que expõem esse ponto em que a certeza não se sustenta. A dúvida vai então se apresentando, ao longo do filme, como a única forma de respeito à realidade e, naquilo que pude ver, é em torno disso que o filme se organiza. Como se já não fosse mais possível se apoiar no Outro, algo que dificilmente deixa de ressoar pra quem já passou por uma análise.

É também por aí que a verdade aparece como um impossível e que o perdão – que atravessa o filme em diferentes níveis, inclusive no exercício do poder – se coloca como questão, sem nunca se estabilizar completamente. A graça, que num primeiro momento parece encarnada na lembrança daquela mulher, vai se deslocando ao longo do filme, ganhando outras formas, como se dissesse respeito a um modo possível de seguir sem garantias.

Senti o filme passar num piscar de olhos e fui profundamente tocada. Fiquei com a sensação de que esse filme não terminou pra mim.

Minha admiração por ti não se estabiliza. Quanto mais eu te encontro, mais algo se abre, mais eu me desloco e sempre sai...
20/03/2026

Minha admiração por ti não se estabiliza. Quanto mais eu te encontro, mais algo se abre, mais eu me desloco e sempre saio querendo mais disso que se passa entre a gente. Obrigada. Também pelo livro.

Te ler é encontrar, no texto, a mesma delicadeza e afinação que se sente no encontro. E se ver, às vezes pérola, às vezes ostra, às vezes só casca.

Livro: Tempo (Ofício das Palavras)
Conto: “Ostras”, de Suzana Modesto Duclós

Minha admiração por ti não se estabiliza. Quanto mais eu te encontro, mais algo se abre, mais eu me desloco e sempre sai...
20/03/2026

Minha admiração por ti não se estabiliza. Quanto mais eu te encontro, mais algo se abre, mais eu me desloco e sempre saio querendo mais disso que se passa entre a gente. Obrigada. Também pelo livro.

Te ler é encontrar, no texto, a mesma delicadeza e precisão que se sente no encontro. E se ver, às vezes pérola, às vezes ostra, às vezes só casca.

Livro: Tempo (Ofício das Palavras)
Conto: “Ostras”, de Suzana Modesto Duclós

Ontem tivemos a alegria de conversar com a escritora .carrara no nosso grupo de escrita. Escutar uma autora que admiramo...
05/03/2026

Ontem tivemos a alegria de conversar com a escritora .carrara no nosso grupo de escrita. Escutar uma autora que admiramos falar do processo de criação - de onde nasce um livro, como surgem certas escolhas, o que aparece no caminho da escrita - é uma preciosidade. É muito bonito poder atravessar a literatura também pela conversa, pelo pensamento compartilhado. Registro aqui esse encontro e agradeço à por criar e sustentar esse espaço de escrita onde experiências assim acontecem.📚

Ontem assisti O Céu da Língua. Saí com a sensação de ter visto algo raro. Não é só sobre a língua portuguesa. É sobre o ...
01/03/2026

Ontem assisti O Céu da Língua. Saí com a sensação de ter visto algo raro. Não é só sobre a língua portuguesa. É sobre o que a língua faz com a gente. Sobre como as palavras nascem, mudam, morrem. Sobre como falamos sem saber exatamente o que estamos dizendo. Sobre como somos feitos de linguagem.

E a psicanálise pulsa naquele palco. Trabalha exatamente com essa matéria viva: a palavra e o que nela falha. O espetáculo de Gregório Duvivier e Luciana Paes é tão amoroso com a língua quanto profundamente psicanalítico. Amei.

Ontem assisti O Céu da Língua. Saí com a sensação de ter visto algo raro. Não é só sobre a língua portuguesa. É sobre o ...
01/03/2026

Ontem assisti O Céu da Língua. Saí com a sensação de ter visto algo raro. Não é só sobre a língua portuguesa. É sobre o que a língua faz com a gente. Sobre como as palavras nascem, mudam, morrem. Sobre como falamos sem saber exatamente o que estamos dizendo. Sobre como somos feitos de linguagem.

E a psicanálise pulsa naquele palco. Trabalha exatamente com essa matéria viva: a palavra e o que nela falha. O espetáculo de Gregório Duvivier e Luciana Paes é tão amoroso com a língua quanto profundamente psicanalítico. Amei.

Uma noite tecendo palavras sobre Como Amar uma Filha.O livro nos acompanhou até o encontro do grupo Tecendo Palavras, co...
20/02/2026

Uma noite tecendo palavras sobre Como Amar uma Filha.

O livro nos acompanhou até o encontro do grupo Tecendo Palavras, conduzido com tanto cuidado pela minha querida colega e amiga . E, como acontece com os livros que f**am, ele não se deixou fechar.

Entre tantos aspectos da leitura, algo me capturou especialmente: quando a narradora (a mãe) recorda que, na infância, respondia detalhadamente a cada pergunta que lhe era feita, “ganhando, assim, o seu sustento”. Como se permanecer no laço dependesse de corresponder àquilo que já se sabia esperado, de responder ao Outro. Talvez seja aí que, para essa mãe, a filha se torne enigma, no ponto em que rompe com esse mesmo regime, essa mesma economia, quando já não responde do modo esperado e o circuito que sustentava o laço deixa de operar como antes.

A mãe chama a filha de enigma. E o livro sustenta esse enigma até o fim. A mãe não desvenda a filha. Espera.

Uma noite bonita, cheia de trocas e de escuta.

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