27/12/2020
O ano que se encerra foi potencialmente difícil. O estressor que se atravessou no mês de março no Brasil, com o surgimento de uma ameaça desconhecida (um vírus perigoso e ameaçador), colocando-nos diante da necessidade de mobilizar recursos para enfrentar essa nova demanda, somou-se aos demais estressores psicossociais em curso nas vidas das pessoas. Essa vivência remete a pensar no processo de desenvolvimento do stress, e segundo a teoria proposta por Hans Selye (1936), o fenômeno
do stress ocorre em três fases: alerta, resistência e exaustão. "Na revisão de seus conceitos, Selye sugeriu que o organismo tenta sempre se adaptar ao evento estressor e neste processo ele utiliza grandes quantidades de energia adaptativa. Na primeira fase, a do alerta, o organismo se prepara para a reação de luta ou fuga, que é essencial para a preservação da vida. Os sintomas presentes nesta fase se referem ao preparo do corpo e da mente para a preservação da própria vida. Se o stress continua presente por tempo indeterminado, a 'fase de resistência' se inicia quando o organismo tenta uma adaptação devido a sua tendência a procurar a homeostase interna. Na 'fase de resistência', as reações são opostas àquelas que surgem na primeira fase e muitos dos sintomas iniciais desaparecem, dando lugar a uma sensação de desgaste e cansaço. Se o estressor é contínuo e a pessoa não possui estratégias para lidar com o stress, o organismo exaure sua reserva de energia adaptativa e a 'fase de exaustão' se manifesta, quando doenças sérias aparecem. A resposta de stress necessariamente deve ser estudada nos seus aspectos físicos e psicológicos, pois ela desencadeia não só uma série de modificações físicas, como também produz reações a nível emocional. Na área emocional, o stress pode produzir desde apatia, depressão, desânimo, sensação de desalento e hipersensibilidade emotiva até raiva, ira, irritabilidade e ansiedade" (Lipp e Malagris, 2001), dentre outros sintomas psíquicos. Diante das circunstâncias em que nos encontramos, em que lamentavelmente não temos como controlar o vírus e as consequências da pandemia para cada vida, para a sociedade e para o país, um caminho possivel é colocar atenção no que está em nosso controle. E como nem sempre é possível ter controle sobre pensamentos e emoções, buscar acolher o que se sente e procurar não se julgar e se cobrar, podem ser estratégias importantes. Tendo em vista que não há prescrição para enfrentamento de qualquer situação que envolve a saúde mental (e desconfie ao se deparar com receitas prontas e genéricas para pessoas únicas e não replicáveis), aceitar a própria condição humana de estar reagindo a um contexto tenso, complexo e potencialmente estressor - e por muitas vezes se perceber tal como o personagem da tirinha - despatologiza o processo vivenciado coletivamente, ainda que se apresente em melodias únicas com soluções singulares.
Alessandra Scherer
Psicóloga
CRP 12/03399