13/01/2026
Em seu discurso na premiação do GLobo de Ouro, Wagner Moura se refere aos traumas transgeracionais, aqueles que, quando não são elaborados, são passados de geração a geração.
Do ponto de vista clínico, experiências de violência, exclusão, miséria, silenciamento ou medo — quando não encontram espaço de simbolização — são transmitidas de forma indireta entre gerações.
Essa transmissão não ocorre apenas por narrativas explícitas, mas sobretudo por padrões emocionais,
estilos de vínculo, respostas automáticas ao medo,
crenças inconscientes sobre o mundo (“o mundo é perigoso”, “não há lugar para mim”, “preciso endurecer para sobreviver”). Logo, herdamos não apenas histórias, mas também afetos não digeridos.
Um ponto potente do discurso é a articulação entre trauma e valores. Psicologicamente, valores familiares e culturais podem operar de duas formas:
Pela repetição defensiva: valores rígidos que mantêm o trauma vivo (silêncio, negação da dor, culto à força, desqualificação da sensibilidade), ou pela transformação simbólica: valores que permitem elaboração (escuta, empatia, responsabilidade coletiva, justiça social).
Ao nomear a repetição de traumas, Wagner Moura
rompe o silêncio transgeracional,legitima a dor como experiência humana compartilhada, e faz um convite
à responsabilização ética das gerações atuais.
Não se trata apenas de “superar” o passado,
mas de reconhecer o que foi herdado, escolher conscientemente o que pode ser transformado,
e construir novos valores que não estejam ancorados no medo.
Elaboração não apaga a história — ela muda o destino da repetição.