Gabriel Gonzalez Maluf - Psicólogo

Gabriel Gonzalez Maluf - Psicólogo Atualmente atendo no meu consultório em Foz do Iguaçu, através da Terapia Cognitivo-Comportamental para crianças, adolescentes e adultos.

CRP 08/16343
Psicólogo Clínico e Forense | Trabalho na Polícia Civil PR, NUCRIA - Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes | Especialista em TCC & DBT | +15 anos acolhendo traumas complexos | TDAH, Autismo, TEPT, Borderline. Possuo experiência na área de trauma, desregulação emocional (Borderline), transtornos do humor, depressão, ansiedade, transtorno afetivo-bipolar e TDAH. Em 2013 realizei atendimentos no Centro de Nutrição Infantil de Foz do Iguaçu à crianças e familiares que sofriam de transtornos alimentares e obesidade e a mães portadoras de desnutrição crônica; mães com recém-nascido ou lactente de parto gemelar; mães envolvidas com dependência química e alcoolismo; relações intrafamiliares abaladas que favoreceram a desnutrição. Entre 2012 e 2014 atuei no serviço de proteção social especial (PSE) de alta complexidade – acolhimento institucional para crianças e adolescentes que por motivo de negligência, violência doméstica, abuso físico e sexual, abandono e maus-tratos tiveram seus vínculos familiares fragilizados ou rompidos.

Atendi um caso na delegacia que, em sua essência, materializava a miséria humana descrita nas entrelinhas da série True ...
15/12/2025

Atendi um caso na delegacia que, em sua essência, materializava a miséria humana descrita nas entrelinhas da série True Detective. Foi um horror não noticiado pela imprensa, mas que me levou ao limite da compreensão. Encaminhado pela Delegacia da Mulher, o cenário de aprisionamento e abuso por anos, lembrava a escuridão do caso do austríaco Josef Fritzl, era real e estava perto de todos nós. Sou psicólogo na polícia civil e realizei a escuta um dia após a vítima, já adulta, conseguir escapar.

O agressor admitiu estupro da filha, na qual tinha um filho fruto da relação incestuosa. A vítima apresentava um quadro evidente de Trauma Complexo, com memórias fragmentadas e dissociação. Assistindo a série True Detective, é inevitável não lembrar do personagem Rust Cohle. Na atmosfera triste e sombria, seu niilismo filosófico, que vê a consciência humana como um "trágico erro" e o mundo como um "esgoto", é a manifestação intelectual do Trauma Vicário.

O Trauma Vicário não é apenas cansaço (burnout). É a transformação sutil, mas profunda, da sua estrutura psíquica e da sua visão de mundo, causada pela exposição empática e prolongada à dor e ao material traumático da vítima. É como se a escuridão do trauma, a desesperança, o niilismo, a quebra da fé na justiça, passasse a ser absorvida pela sua própria alma. O próprio Rust Cohle, com sua filosofia niilista e o peso existencial que carrega, é o retrato dessa transformação, onde a linha entre o horror que se investiga e o horror que se sente começa a se desfazer."

Por fim, atuar na delegacia de crimes contra crianças e adolescentes é um trabalho em que o profissional caminha na sombra, lidando com a violência física e sexual e a fragilidade dos vínculos. Lembrei da pergunta do colega de Cohle — "o que o faz continuar acordando todas às manhãs?" Para o profissional que lida com violência, traumas e imensa desregulação emocional, a resposta não pode ser a destruição niilista. Ao lutar pela proteção e pela verdade, eu honro o meu compromisso de contribuir para uma vida significativa para as vítimas.

Estou maratonando a 1ª temporada da série True Detective. Já assistiram?Ela me pegou de imediato, não apenas pelo mistér...
15/12/2025

Estou maratonando a 1ª temporada da série True Detective. Já assistiram?Ela me pegou de imediato, não apenas pelo mistério, mas pela sua ousadia em desmantelar a confiança na narrativa. A essência da série são os interrogatórios e a reconstituição da verdade. Como sou psicólogo na polícia civil, fazendo escuta e auxiliando na investigação de crimes contra crianças e adolescentes, além de estar cursando Criminal Profiling - Psicologia Investigativa, sou treinado a olhar para além do óbvio.

No meu trabalho lido com crimes que, na maior parte das vezes, não deixam vestígios (estupro de vulneráveis). Portanto, no inquérito policial, a vítima assume um papel de protagonista na construção dos fatos. O "narrador não confiável" da série lembra minha rotina, pois a escuta de vítimas e testemunhas nunca é uma linha reta. A memória é falível, o trauma distorce, e meu papel é justamente usar a ciência forense para separar o fato psicológico do fato criminal.

Os longos interrogatórios de Cohle e Hart espelham a complexidade das escutas que conduzo na delegacia do NUCRIA, pois exigem delicadeza e sensibilidade com a vítima. Assim como os detetives revisitam o passado em busca de insights sobre o presente, meus relatórios não são apenas descrições; são análises detalhadas que subsidiam as investigações, tentando reconstruir a experiência da vítima, muitas vezes em um contexto de extrema violência e silêncio.

Estou aqui na delegacia redigindo meus relatórios psicológicos e, infelizmente, uma observação se repete: a imensa maior...
11/12/2025

Estou aqui na delegacia redigindo meus relatórios psicológicos e, infelizmente, uma observação se repete: a imensa maioria dos casos de violência contra crianças e adolescentes ocorre dentro de casa.

Em várias situações, é um conhecido da família, com acesso facilitado à residência, que se aproveita. O cenário ideal para o agressor é criado justamente em momentos de ausência de supervisão adulta ("Minha mãe foi trabalhar e me deixou com o meu padrasto"), permitindo que o modus operandi se instale.

Esse modus operandi se apoia fundamentalmente na tática do grooming (aliciamento), buscando estabelecer uma falsa confiança para viabilizar o abuso. Ele oferece doces ou convida a criança para brincar — estratégias de distração e aproximação — pavimentando o caminho para a proximidade forçada ("passando a mão no meu braço e na minha perna", "puxava minha roupa").

A seguir, utiliza a coerção psicológica e a instrumentalização da culpa. Ao ser repelido, o agressor inverte a lógica, usando a compra dos doces ("eu trouxe doces e você me trata assim?") para tentar legitimar sua intromissão e gerar culpa na criança.

Essa manipulação é um reflexo direto de distorções cognitivas encobertas. O agressor se percebe superior e merecedor de gratificação, desconsiderando completamente as necessidades e os limites da vítima.

Complementando o aliciamento, é comum o agressor mostrar no celular algum vídeo pornográfico. Este ato, com forte carga intrusiva, visa baixar as inibições da criança, como uma forma de dessensibilização sexual preparatória.

O que percebo, enquanto profissional, é que a prevenção primária precisa concentrar-se na mitigação das vulnerabilidades contextuais, garantindo supervisão adulta consistente e o reconhecimento precoce das táticas de grooming. É nosso dever educar crianças e cuidadores sobre a natureza insidiosa do aliciamento, incluindo a instrumentalização da culpa e o monitoramento rigoroso do conteúdo intrusivo em dispositivos digitais. Também é imperativo validar e reforçar os comportamentos de autodefesa da vítima, encorajando a resistência e a busca por ajuda.

Para você, profissional ou cuidador, essas dinâmicas de grooming e instrumentalização da culpa já eram claras? Aprofundar a compreensão do modus operandi do agressor faz sentido para a sua prática de prevenção?

Na última semana precisei atender 3 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes envolvendo flagrantes. Um d...
06/12/2025

Na última semana precisei atender 3 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes envolvendo flagrantes. Um dos casos veio através da Polícia Federal e me tomou bastante tempo. Esse tipo de crime é um dos maiores desafios para o sistema de justiça criminal, devido à ausência de testemunhas, à fragilidade psicológica das vítimas e à natureza íntima do ato.

Nos bastidores do meu trabalho como psicólogo da Polícia Civil em Foz do Iguaçu, tenho enfrentado uma realidade complexa. Sou o único profissional designado para a Escuta Especializada de crianças e adolescentes vítimas de violência na Tríplice Fronteira, uma região estratégica que une Brasil, Paraguai e Argentina, onde existe intensa circulação de pessoas e favorece crimes transnacionais, incluindo tráfico de pessoas, dr**as e armas.

Atuo no NUCRIA - Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes, unidade da Polícia Civil do Paraná. Porém, casos urgentes envolvendo flagrante chegam de múltiplas frentes: Delegacia da Mulher, DEA e operações da Polícia Federal contra redes de abuso sexual infantil.

Meu trabalho começa muito antes da entrevista com as vítimas. Preciso me aprofundar no estudo de documentos: assisto vídeos de depoimentos de agressores, leio conversas em aplicativos de mensagens, observo imagens de câmeras de segurança, e leio os boletins de ocorrência. Essa análise prévia faz parte do meu trabalho de psicologia investigativa. É essencial compreender a dinâmica da violência, as ameaças e barganhas utilizadas pelo agressor, e o contexto da relação, pois me permite planejar cada abordagem da escuta com as vítimas de forma personalizada. Preciso estabelecer, em apenas 1 hora, um vínculo genuíno com quem, na maioria das vezes, é a única testemunha ocular.

É duro escutar os detalhes das violências que essas crianças e adolescentes sofreram. Suas palavras evocam imagens que permanecem na memória, carregadas de dor, medo e injustiça.

Mesmo com todas as dificuldades, o que me motiva todos os dias é oferecer às vítimas que enfrentaram violência um espaço seguro para serem ouvidos. Cada relato tem valor, e minha responsabilidade é acolher essas vozes sem causar mais dor, ajudando a transformar experiências traumáticas em oportunidades de reconhecimento e proteção.

Imagine uma prisão com grades invisíveis… Esse é um dos efeitos que eventos traumáticos podem causar na nossa mente. Vio...
06/12/2025

Imagine uma prisão com grades invisíveis… Esse é um dos efeitos que eventos traumáticos podem causar na nossa mente. Violência, perdas e traumas deixam marcas que nem sempre podemos ver. No meu trabalho como psicólogo, seja no consultório ou na Polícia Civil, onde faço a escuta de crianças e adolescentes vítimas de crimes, identifico muitas pessoas que desenvolveram Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Uma pessoa com TEPT vive um estilo de vida marcado pela EVITAÇÃO – como se existissem grades invisíveis que a impedem de entrar em contato com coisas importantes para ela. Por exemplo, após um trauma como o abuso sexual infantil, a criança passa a ver o mundo como um lugar perigoso. Ela começa a evitar lugares, pessoas e atividades – coisas que antes traziam alegria. A criança ou o adolescente pode carregar sentimentos intensos de culpa, medo, pesadelos, isolamento e baixa autoestima. O TEPT, com seus sintomas de revivência do evento, esquiva de lembranças e excitação aumentada, é uma ruptura na vida da vítima. Com o tempo, essa "prisão invisível" a afasta a vítima das coisas que ela ama, intensificando a tristeza e a frustração.

Mas entender como a evitação causa os sintomas é o primeiro passo para enfrentar o trauma. Tentar esquecer só piora o problema. Quebrar essas grades invisíveis leva tempo e coragem, mas é possível. A terapia para superar o trauma envolve uma exposição gradual, por meio da memória e da fala. A pessoa revive as experiências traumáticas e o terapeuta a ajuda a ressignificar, dando um novo sentido ao trauma e integrando-o à história de vida.

Entre janeiro e setembro de 2025, um período que compreende 192 dias úteis, o Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolesce...
06/12/2025

Entre janeiro e setembro de 2025, um período que compreende 192 dias úteis, o Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA), em Foz do Iguaçu (PR), registrou 181 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.

Sendo o único psicólogo da Polícia Civil na cidade, realizei a escuta especializada em cada um desses 181 registros e também atendi inúmeras ocorrências envolvendo lesão corporal, maus-tratos e violência doméstica.

Esses números não são isolados. Dados recentes do Brasil, entre 2024 e 2025, indicam um crescimento alarmante nos casos de violência contra crianças e adolescentes. O aumento é visível em múltiplas formas de agressão, incluindo homicídios, violência física, abuso sexual e negligência, sendo que a maioria desses incidentes ocorre justamente no ambiente familiar, ambiente onde deveriam se sentir mais seguros.

É algo inaceitável. Vivemos uma crise de desproteção infantil. Estamos falhando no dever mais básico que qualquer sociedade deve cumprir: proteger a vida e a dignidade de suas crianças.

A violência sexual contra meninos e meninas é uma ferida aberta e silenciosa em nossa sociedade. É um dos crimes mais graves e, ao mesmo tempo, um dos mais difíceis de comprovar, pois na esmagadora maioria dos casos não deixa vestígios físicos, apenas marcas profundas na alma que podem durar uma vida inteira.

Fonte: análise estatística oriundo do Business Intelligence – BI - Boletim de Ocorrência Unificado – BOU e Sistema de Controle de Ocorrências Letais – S.C.O.L.

Quase todos os dias, escuto relatos de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Um dos eventos mais traumáti...
06/12/2025

Quase todos os dias, escuto relatos de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Um dos eventos mais traumáticos que alguém pode vivenciar, essa violência provoca uma ruptura devastadora na vida da vítima. A gravidade das sequelas emocionais e sociais é imensa, frequentemente evoluindo para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que se manifesta por meio da revivência constante do evento, esquiva de lembranças e excitação aumentada ou um estado de alerta constante do corpo, como se o indivíduo estivesse sempre à espera de uma nova ameaça, mesmo após o perigo inicial ter passado.

A memória de eventos traumáticos não é um arquivo fotográfico intocado. Fatores emocionais e sociais, como o medo, a vergonha ou a culpa, podem fazer com que a vítima não relate a experiência, não por falta de lembrança, mas por indisposição. Além disso, quanto maior o tempo transcorrido entre o evento e o relato, maior a perda de informações.

É crucial que o profissional que faça a escuta da vítima reconheça que a recordação é um processo complexo que exige esforço cognitivo. Se a vítima falha em lembrar com precisão as características do agressor, isso se deve à natureza da memória do trauma.

Hoje eu escutei um caso de flagrante envolvendo violência sexual contra criança. Uma das coisas mais desconfortáveis que...
06/12/2025

Hoje eu escutei um caso de flagrante envolvendo violência sexual contra criança. Uma das coisas mais desconfortáveis que tem é ver a família fazer invalidação traumática.

A Invalidação Traumática é definida como "invalidação extrema ou repetitiva das experiências privadas significativas dos indivíduos, características identificadas como aspectos importantes de si mesmos, ou reações a si mesmos ou ao mundo” (Linehan, 2015, citada por Harned, 2022, em Tratando o Trauma na Terapia Comportamental Dialética).

Para a criança, a invalidação traumática é devastadora: ela aprende que não pode confiar no seu próprio sentimento e nas suas percepções. A "invalidação" ensina a criança a esconder suas emoções, não revelar os abusos, os maus-tratos, levando à confusão sobre quem ela realmente é e como está se sentindo.

As crianças e adolescentes no espectro autista têm um risco maior de sofrer violência sexual em comparação com a populaç...
06/12/2025

As crianças e adolescentes no espectro autista têm um risco maior de sofrer violência sexual em comparação com a população em geral. É o que tenho percebido nas escutas que faço na delegacia. Nos artigos que li, encontrei que pessoas no Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentam um risco significativamente maior de sofrer violência sexual e bullying do que a população em geral. A vitimização geral atinge 44% dos autistas; o bullying chega a 47%, e a vitimização sexual, a 40%. Os jovens autistas têm de três a quatro vezes mais chances de sofrer contato sexual indesejado do que seus pares não autista (Trundle et al., 2022).

Essa maior exposição está ligada a características do TEA, como os déficits na interação social e na comunicação. Faz parte do autismo a dificuldade na comunicação com o outro, em fazer a leitura do verbal e do não verbal, não conseguindo se expressar, interpretar expressões faciais, tom de voz, compreender ironias e metáforas, identificar as intenções da outra pessoa com relação a ela. Portanto, essa dificuldade em interpretar pistas não verbais e entender limites sociais torna o indivíduo mais propenso a ficar isolado e ser alvo de abusadores.

A vitimização crônica resulta em graves consequências psicológicas, incluindo ansiedade, depressão e o desenvolvimento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). No entanto, o diagnóstico de TEPT em autistas é complexo: os sintomas do trauma podem se manifestar de forma atípica, com aumento de desregulação (meltdowns) ou regressão de habilidades, podendo ser erroneamente interpretados como traços centrais do próprio TEA. Isso leva a um diagnóstico incorreto ou à subestimação do trauma (Kildahl et al., 2019; Ng-Cordell et al., 2022).

Referências:

Kildahl, A. N., Helverschou, S. B., Bakken, T. L., & Oddli, H. W. (2020). “If we do not look for it, we do not see it”: Clinicians’ experiences and understanding of identifying post-traumatic stress disorder in adults with autism and intellectual disability. Journal of Applied Research in Intellectual Disabilities, 33(5), 1119–1132.

Ng-Cordell, E., Wardell, V., Stewardson, C., & Kerns, C. M. (2022). Anxiety and trauma-related disorders in children on the autism spectrum. Current Psychiatry Reports, 24(3), 171–180.

Trundle, G., Jones, K. A., Ropar, D., & Egan, V. (2022). Prevalence of victimisation in autistic individuals: A systematic review and meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse, 24(4), 2282–2296.

Eu sei que este é um tema que "embrulha o estômago", mas os casos mais graves que atendi na delegacia são os de crianças...
06/12/2025

Eu sei que este é um tema que "embrulha o estômago", mas os casos mais graves que atendi na delegacia são os de crianças que sofreram violência sexual de forma crônica e recorrente, parecendo não ter fim. Essa é uma das experiências mais extremas de invalidação que uma criança pode suportar, sendo um fator de risco significativo e frequentemente associado à etiologia ou causa do transtorno de personalidade borderline.

Na DBT, abordagem que sou especialista, o modelo biossocial explica que o desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) surge da interação entre uma vulnerabilidade emocional (uma predisposição biológica para emoções intensas e reativas) e o crescimento em um ambiente invalidante, causando uma disfunção fundamental no sistema de regulação emocional (Linehan, 1993; Fruzzetti et al., 2005).

Sabemos que a maioria dos casos de abuso ocorrem dentro do contexto familiar, por pessoas próximas que desempenham papel de cuidador. O agressor usa de seu papel de cuidador e da confiança que a criança tem por ele para iniciar de forma sutil o abuso. A invalidação traumática nesse cenário ocorre porque o agressor geralmente impõe o segredo, dizendo à vítima que o ato é "normal" e proibindo-a de contar a alguém, ameaçando, além do medo que a vítima tem de contar e ninguém na família acreditar.

Quando a criança é submetida a essa invalidação severa, ela aprende a não confiar em suas próprias percepções e experiências emocionais internas, resultando em uma tendência à autoinvalidação, onde a pessoa passa a acreditar que seu sofrimento é culpa dela ou que suas reações são inadequadas. Agora, pense em como que traumas graves e crônicos em momentos críticos do desenvolvimento, como na infância e adolescência, podem promover mudanças no sistema nervoso central ( (Linehan, 1993; Van Dijk, 2009).

Esses traumas crônicos intensificam a vulnerabilidade emocional biológica da criança, tornando-as mais suscetível a emoções intensas e negativas. Essa combinação de alta sensibilidade emocional inata e a extrema invalidação do trauma incestuoso leva à desregulação emocional generalizada, com grande dificuldade em lidar com a tristeza, a raiva ou o medo. Neste contexto, a Terapia Comportamental Dialética (DBT) é reconhecida como uma das abordagens mais eficazes para reduzir os comportamentos suicidas e autolesivos não suicidas, frequentemente manifestados nessa condição, além de se concentrar no treinamento de habilidades para modular a emotividade extrema.

Referências:
Fruzzetti, A. E., Shenk, C., & Hoffman, P. D. (2005). Family interaction and the development of borderline personality disorder: A transactional model. Development and Psychopathology, 17, 1007–1030.

Linehan, M. M. (1993). Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder. The Guilford Press.

Van Dijk, S. (2009). The Dialectical Behavior Therapy Skills Workbook for Bipolar Disorder. New Harbinger Publications.

Em um caso recente, comecei pela consulta prévia aos autos do inquérito policial. Era indispensável para compreender o c...
06/12/2025

Em um caso recente, comecei pela consulta prévia aos autos do inquérito policial. Era indispensável para compreender o cenário e sustentar a avaliação psicológica. Ali encontrei a oitiva ou o depoimento do suposto agressor em sede policial, conversas em aplicativos descrevendo supostos atos se***is contra uma criança e outras provas documentais relevantes.

À primeira vista, a narrativa dele parecia bem estruturada. Mas, ao revisitar o depoimento com atenção, saltaram inconsistências profundas. No interrogatório, o comportamento era tenso, evasivo, repleto de hesitações, destoava da gravidade dos fatos que dizia ter cometido. Isso abriu uma linha de hipótese mais incômoda: a possibilidade de uma confissão não real. Confusão interna? Fragilidade cognitiva? Pressão externa? Um transtorno psiquiátrico não identificado? Podia ser desde um quadro do neurodesenvolvimento ou pseudologia fantástica (mitomania) até fenômenos dissociativos ou sintomas psicóticos.

Mais tarde, ao conduzir a escuta da criança que estava em fase pré-escolar, outra camada para o caso se impôs. Ela negou sistematicamente qualquer abuso, com fala espontânea e afetividade preservada. Porém, tinha dificuldades claras na organização temporal dos fatos, na fluência verbal e na fronteira entre fantasia e realidade. Elementos que sugeriam, com cautela, um possível atraso no desenvolvimento.

Esse ponto exigiu cuidado redobrado. Condições do neurodesenvolvimento não invalidam o testemunho da criança; exigem, isso sim, adaptações rigorosas na interpretação de suas falas, especialmente no contexto forense, onde uma palavra mal compreendida pode distorcer todo o caso.

As hipóteses que emergiram eram tudo menos simples. De um lado, a chance de uma confissão falsa motivada por sugestionabilidade, necessidade de autopunição, pseudologia fantástica ou mecanismos dissociativos. De outro, a possibilidade de que uma criança com desenvolvimento atípico não tivesse recursos cognitivos e linguísticos para compreender ou relatar o que viveu.

Nenhuma dessas vias pode ser descartada apenas pela aparência dos relatos. O que parecia um caso “óbvio” desdobrou-se em um emaranhado psicológico, cognitivo e contextual que exige muito mais do que intuição, pressa ou leitura literal dos depoimentos. Casos assim deixam evidente o valor de uma perícia psicológica e psiquiátrica integrada nas investigações de violência sexual, especialmente quando envolvem populações vulneráveis.

A psicologia investigativa não tem a função de decidir se houve crime. Ela opera para oferecer instrumentos técnicos que permitam à autoridade policial compreender como as pessoas relatam os fatos, por que agem de determinada forma e quais são os riscos de erro na avaliação da credibilidade, tanto das vítimas quanto dos acusados.

Sem essa mediação técnica, corremos dois perigos simétricos e igualmente graves: criminalizar alguém em sofrimento mental ou falhar em reconhecer uma criança que não consegue pedir ajuda como se espera.

Outro dia, na delegacia onde atuo como psicólogo, recebi uma adolescente traumatizada. Ela havia sido seguida a pé, à no...
06/12/2025

Outro dia, na delegacia onde atuo como psicólogo, recebi uma adolescente traumatizada. Ela havia sido seguida a pé, à noite, até sua própria casa, arrastada para um local isolado e violentada. Estava ali, conversando comigo, apenas 24 horas depois do ocorrido, ainda em choque e silêncio. Este é um desses casos que mexem profundamente com as emoções, que nos lembram o quão frágil pode ser o senso de segurança e o quanto o acolhimento, nesses momentos, é essencial.

Para eu conseguir fazer a escuta dela, o acolhimento e o estabelecimento de rapport, ou seja, um vínculo construído sobre confiança mútua, respeito e aceitação incondicional são, sem dúvida, o passo mais fundamental. Por isso, foi essencial começar não com perguntas, mas com presença: uma escuta atenta, um olhar que não julga, uma voz que acalma. Métodos não coercitivos, ancorados na empatia, revelam-se os mais eficazes não apenas para obter informações precisas e confiáveis, mas, sobretudo, para devolver à vítima um mínimo de controle em meio ao caos emocional em que se encontra.

Outro ponto fundamental em minha abordagem é a etapa conhecida como small talk, ou seja, uma conversa inicial sobre temas neutros, que desempenha um papel essencial na construção do rapport e na preparação para uma narrativa livre antes de abordar o evento traumático. Eu sempre inicio com perguntas suaves e gerais: sobre a escola, os hobbies ou a rotina familiar, por exemplo, pois essa prática não apenas ajuda a adolescente a se sentir mais à vontade e menos ameaçada, como também me permite observar sua capacidade de comunicação, seu nível de ansiedade e sua habilidade de evocar memórias de forma espontânea. Assim, crio, passo a passo, um caminho seguro para que, quando chegar a hora de falar do trauma, ela possa fazê-lo com mais clareza, confiança e menos sofrimento.

Mas a minha postura, nesse momento, precisa ir além da técnica: deve ser humana, sensível, intencionalmente acolhedora. Tenho pouco tempo para criar uma atmosfera psicológica segura, não só para convidá-la a falar, mas para permitir que respire sem medo. O estresse agudo que ela carrega, compreensível diante da brutalidade do que sofreu, pode interferir na recuperação da memória e comprometer suas respostas cognitivas e até físicas.

E, justamente por o abuso ter ocorrido há apenas 24 horas, sua memória ainda está viva, nítida, mas também frágil e exposta. Por isso, o foco inicial não é extrair detalhes, mas aliviar o sofrimento imediato e, acima de tudo, evitar qualquer forma de revitimização, pois a maneira como somos recebidos após um trauma pode tanto abrir caminho para a cura quanto aprofundar a dor.

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