22/11/2025
Tinha um casaco preto — daqueles que carregam história, combinações, memórias. Não sei ao certo qual era o tecido, mas bastou uma lavagem para que ele encolhesse como se tivesse decidido, por conta própria, que já não caberia mais em mim. Olhei para ele e percebi que algo tinha mudado: o casaco continuava sendo casaco, mas já não vestia o meu tamanho.
Enquanto segurava aquela peça que tanto apreciei, pensei no quanto isso se parece com os nossos processos internos. A psicanálise nos lembra que o sujeito está sempre em movimento, e que crescer implica inevitavelmente deixar para trás aquilo que não acompanha mais o nosso tamanho psíquico. Freud chamava esse movimento de “enfrentar as perdas necessárias” — aquelas que não nos diminuem, mas nos estruturam.
Nem sempre é fácil aceitar. Muitas vezes insistimos em vestir vivências antigas, relações, maneiras ou hábitos que um dia foram perfeitos e aconchegantes. Mas o que já não nos serve mais também nos diz algo: que nós tornamos outros.
Perder o casaco me fez pensar que algumas “peças” da vida não deixam de caber porque simplesmente encolheram; deixam de caber porque nós precisamos crescer. E reconhecer essa perda é um ato de maturidade: cria espaço para novas formas de existir, mais alinhadas ao nosso desejo e às versões mais verdadeiras de nós mesmos.
“Às vezes, aceitar o que encolheu é o primeiro passo para descobrir o que finalmente pode nos vestir do tamanho do nosso crescimento”.
✍🏻Mira Franciele Caparelli
CRP 06/125073