02/10/2019
Bom texto sobre reinserção social de pessoas com transtorno por uso de dr**as.
REINSERÇÃO SOCIAL EFICAZ: UMA REALIDADE POSSÍVEL
Rogério Adriano Bosso
Psicólogo – Mestrando do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da UNIFESP. Especialista em Saúde Mental e Dependência Química -UNIFESP
Nos dias atuais, no Brasil, no que diz respeito aos serviços de tratamento exclusivos para dependentes químicos, pode-se perceber um “gap” na etapa final do processo de recuperação, a chamada reinserção social.
A temida recaída pode ser para o profissional que trabalha com dependentes químicos tão assombrosa quanto o “bicho-papão” é para as crianças. Tamanha a periculosidade que traz a recaída, que faz com que os desenhos dos modelos de programas de reinserção social sejam pensados com base em proteção total, que acabam por se despreocupar em preparar o paciente para a retomada de seus papeis sociais. Vale ressaltar que a reinserção não é um “gap” apenas nos programas de tratamento, mas também nas políticas públicas, que apenas recentemente vem lançando seu olhar para essa temática. Essa falsa ideia impossibilita que o paciente crie habilidades sociais e estratégias eficazes necessárias para que possa lidar com as adversidades cotidianas em seu processo de recuperação no enfrentamento de seu problema com álcool e/ou outras dr**as; e ao terminarem o tempo estipulado de tratamento, simplesmente saem, “sem rumo”, ou seja, sem um planejamento necessário para sua retomada na vida.
Um programa de reinserção social deve ser estruturado de uma maneira que contemple as necessidades do paciente e apresente uma continuidade de intervenções de apoio que promovam mudanças concretas no estilo de vida, não apenas para o paciente, mas também para sua família. (Ganev & Lima, 2015). O paciente que se encontra em um processo de reinserção social, também se encontra no estágio motivacional conhecido como manutenção. No estágio de manutenção, a necessidade de consumir algum tipo de droga vai diminuindo com o passar dos dias e o grande desafio é permanecer em abstinência. Para tanto, o paciente deve procurar por práticas saudáveis, longe do uso de dr**as, para que consiga construir um novo estilo de vida e desenvolver habilidades sociais para mante-se apoiado nessas mudanças (Ferreira et al, 2015).
A reinserção social deve ser recheada de ofertas específicas para preparar o paciente para o retorno a seus papeis sociais como, por exemplo, e talvez o mais importante, o trabalho, pois é através do trabalho que poderá se reestruturar com uma rotina. Para tanto, oportunizar atividades de empregabilidade e planejamento orçamentário são estratégias certeiras, pois, segundo o DSM 5 (American Psychiatry Association, 2014), o paciente sofre uma restrição do repertório de vida e deixa de desempenhar atividades sociais, ocupacionais ou familiares devido ao uso. Uma das possibilidades é que as atividades sejam realizadas em parcerias com empresas ou escolas profissionalizantes. Na empresa, um profissional de Recursos Humanos pode simular entrevistas e dar dicas importante para a (re)colocação profissional ou até mesmo oferecer treinamentos que são realizados para os funcionários da empresa, gerando um certificado que possa ajudar a encorpar o currículo do paciente. Já as escolas podem oferecer bolsas para auxiliar na aquisição de novos conhecimentos e criação de novas habilidades nessa fase de recomeço.
É importante nessa fase de retomada da rédea da vida, que o paciente saiba executar funções que farão a diferença em um mundo competitivo como elaborar um bom currículo, ter boa comunicação, saber trabalhar em equipe, desenvolver habilidades para liderança, ter preocupação com sua apresentação pessoal, saber se portar em uma entrevista de emprego, entre outras, que devem ser ofertadas de forma contínua e em parcerias com serviços que possam auxiliar nesse processo como, por exemplo, Centros Esportivos, Espaços de Atividades Culturais, Escolas de Educação Formal e de Cursos Profissionalizantes, Centros de Apoio ao Trabalhador, entre outros.
Parcerias com serviços de saúde também se fazem importantes, pois algumas atividades específicas para a manutenção da abstinência no processo de recuperação são encontradas nos Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Dr**as – CAPS AD): atendimentos psicológicos individuais e em grupo, atendimentos psiquiátricos, grupos de Prevenção da Recaída, entre outras atividades. Além do CAPS AD, que é um ambiente de tratamento altamente estruturado, deve-se contar com os grupos de mútua ajuda. Os grupos de mútua-ajuda como, por exemplo, os Alcoólicos e Narcóticos Anônimos, são recursos fundamentais na recuperação, e que estão disponíveis a qualquer indivíduo. As reuniões de Alcoólicos Anónimos e Narcóticos Anônimos são os pilares fundamentais do grupo, é nessas reuniões que o processo de recuperação vai se consolidando dia após dia, utilizando-se da filosofia dos doze passos (Edwards, Marshall, & Cook, 1999). As combinações de reuniões de doze passos na oferta de programas de reinserção alcançam taxas de sobriedade de 45% (OPAS & CICAD, 2000).
Deve-se valorizar a psicoeducação para familiares dos pacientes que estão em um processo de reinserção social e ao elaborar o projeto terapêutico singular, inserir a família como corresponsável pela efetividade do tratamento, fazendo-a compreender sua importância no processo de recuperação, além de entender e validar as orientações passadas pela equipe de tratamento. (Carvalho et al., 2012).
Durante esse processo, a recaída pode ser uma realidade, sendo assim, a equipe precisa pensar em formas de manejar episódios de lapso e/ou recaída, construindo um protocolo com auxílio do médico para essas situações específicas.
Outro “gap” observado nos tratamentos para dependência química, é a falta de grupos de pós tratamento para aqueles pacientes que se mantém em recuperação e que formaram um vínculo importantes com os profissionais, com outros pacientes em recuperação e com o serviço. O grupo de pós tratamento deve estar pautados na prevenção da recaída, no aumento da autoeficácia, em explorar novas formas de lidar com situações de conflitos, oferecer apoio e proteção, auxiliar na construção e fortalecimento de vínculos saudáveis, na participação social e no desenvolvimento da autogestão, autossustentação e autonomia, contemplando todas as áreas da vida.
Serviços de tratamento que não estruturam sua reinserção social podem deixar muito a desejar e como resultado, estudos mostram que quase 70% dos pacientes recairão no uso problemático de substâncias e necessitarão de novo tratamento, sobrecarregando ainda mais os limitados recursos de saúde destinados para o tratamento da dependência química (Perroni, P.A., 2014; Ferri et al. 2002). Sem sistemas eficazes de pós tratamento, a possibilidade de recaída a incapacidade de reintegrar-se na comunidade tendem a manter-se (OPAS & CICAD, 2000).
FONTES:
American Psychiatry Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM–5), 2014
Carvalho, L.G. P; Moreira, M. D. S.; Rézio, L.A; Teixeira, N.Z.F. The construction of a Singular Therapeutic Project with the user and the family: potentialities and limitations
Mundo saúde (1995); 36(3): 521-525, jul.-set. 2012.
Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. Alcoólicos Anônimos. In: Edwards G,
Marshall EJ, Cook CCH. O tratamento do alcoolismo. Porto Alegre: ARTMED;
1999.
Ferreira ACZ, Capistrano FC, Souza EB, Borba LO, Kalinke LP, Maftum MA. Drug addicts treatment motivations: perception of family members. Rev Bras Enferm. 2015;68(3):415-22. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2015680314i
Ferri CP, Gossop M, Rabe-Hesketh S, Laranjeira RR. Differences in factors associated with first treatment entry and treatment re-entry among co***ne users. Addiction. 2002;97(7):825-32.
Ganev, E., & Lima, W. de L. (2015). Reinserção social: processo que implica continuidade e cooperação. Serviço Social E Saúde, 10(1), 113-129. https://doi.org/10.20396/sss.v10i1.1380
Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) & Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Dr**as (CICAD). El modelo ideal de atención – normas minimas. In: OPAS & CICAD. La dependencia de las dr**as y su tratamiento – guia y criterios básicos para el deserollo de programas de avaluación de la calidad y normas para la atención de la dependencia de dr**as. OPAS/CICAD; 2000.
Perrone PA. [The therapeutic community for recuperation from addiction to alcohol and other drugs in Brasil: in line with or running counter to psychiatric reform?]. Ciencia & saude coletiva. 2014;19(2):569-80.