11/01/2026
Foto de Jung jovem ao lado da sua mãe.
Quer o homem compreenda ou não o mundo dos arquétipos, deverá permanecer consciente do mesmo, pois nele o homem ainda é natureza e está conectado com suas raízes. Uma visão de mundo
ou uma ordem social que cinde o homem das imagens primordiais
da vida não só não constitui uma cultura, como se transforma cada
vez mais numa prisão ou num curral. Se as imagens originárias
permanecerem de algum modo conscientes, a energia que lhes
corresponde poderá fluir no homem. Quando não for mais possível manter a conexão com elas, a energia que nelas se expressa, causando o fascínio subjacente ao complexo parental infantil, retorna ao inconsciente. Desta forma, o inconsciente recebe uma inesistível carga de energia que atua quase como uma vis a ergo de qualquer ponto de vista ou tendência que nosso intelecto possa apresentar como meta à nossa concupiscentia. Deste modo o homem f**a irremediavelmente à mercê de sua consciência e de
seus conceitos racionais no tocante àquilo que é certo ou errado. Longe de mim desvalorizar o dom divino da razão, esta suprema faculdade humana. Mas como senhora absoluta ela não tem sentido, tal como não tem sentido a luz num mundo em que está ausente seu oposto, a obscuridade. O homem deveria dar atenção ao sábio conselho da mãe e obedecer à lei inexorável da natureza que delimita todo ser. Jamais deveria esquecer que o mundo existe porque os seus opostos são mantidos em equilíbrio. O racional é
contrabalançado pelo irracional e aquilo que se planeja, pelo que é
dado.
Esta incursão no campo das generalidades foi provavelmente
inevitável, pois a mãe é o primeiro mundo da criança e o último mundo do adulto. Todos nós somos envolvidos pelo manto dessa Ísis maior, como seus filhos. Agora, porém, queremos voltar aos nossos tipos do complexo materno feminino. No homem, o complexo materno nunca se encontra em estado “puro”, isto é, ele vem sempre misturado ao arquétipo da anima, resultando daí o fato de as afirmações do homem sobre a mãe serem quase sempre emocionais, isto é, preconceituosas, impregnadas de “animosidade”. A possibilidade de examinarmos os efeitos do arquétipo da mãe, livre da interferência da “animosidade”, só existe na mulher, o que poderá dar certo apenas nos casos em que ainda não se desenvolveu um animus compensatório.
Jung
Os arquétipos e o inconsciente coletivo
Foto de família com seu pai Paul Achilles, sua irmã Johanna Gertrud e sua mãe Emilie Preiswerk, 1896.