01/12/2025
Gerson de Melo Machado, o Vaquerinho, de 19 anos, morreu no domingo depois de descer até o espaço dos leões no parque Zoobotânico de João Pessoa e ser atacado por uma leoa.
Após a morte brutal, a conselheira tutelar Verônica Oliveira lembrou a trajetória de abandono que Gerson carregava desde criança. Encontrado sozinho numa rodovia aos dez anos e entregue ao Conselho Tutelar, ele cresceu atravessado por pobreza extrema, transtornos mentais nunca tratados e a ausência completa de uma rede familiar estruturada. Ainda assim, repetia o sonho de ir à África para domar leões, como se esse desejo fosse a única porta imaginária capaz de tirá-lo da vida dura que levava.
A mãe, diagnosticada com esquizofrenia, havia perdido o poder familiar, mas continuava sendo o centro afetivo do qual ele jamais abriu mão. Ele fugia dos abrigos para reencontrá-la, acreditando que um dia ela estaria bem o suficiente para cuidar dele. Ela própria lutava contra a doença, muitas vezes chegando ao Conselho para dizer que não conseguia ser mãe, que precisava devolver o filho, que sua mente doente a incapacitava de sustentar e dar afeto ao menino. Eram duas pessoas frágeis tentando se agarrar uma à outra e sempre derrotadas pelas circunstâncias.
Gerson era o único dos irmãos que não conseguiu uma família adotiva. O possível transtorno, somado à marca da negligência extrema, o transformava num menino que ninguém escolhia, porque a sociedade prefere crianças perfeitas dentro de um sistema que só acolhe quem chega já ferido. Apesar disso, mantinha uma doçura rara. A conselheira que o acompanhou por oito anos dizia que ele sonhava, perguntava, buscava um lugar no mundo, mesmo quando o mundo insistia em empurrá-lo de volta para a sarjeta.
Sua morte na jaula da leoa encerrou uma vida marcada por fome, solidão e uma busca incansável por acolhimento. Aos 19 anos, partiu carregando a mesma inocência que o fazia acreditar que podia conversar com feras e sobreviver aos perigos que o cercavam desde o berço. Sua história deixa um eco doloroso, um lembrete de que outras crianças continuam invisíveis, esperando que alguém as veja antes que seja tarde demais.