05/01/2022
Martha Medeiros. Livro Non-Stop Crônica tudo conosco - Fevereiro de 2001
Por mais que o catolicismo nos instrua a agradecer mais do que a pedir, a gente pede.
Em silêncio, antes de dormir, a gente pede.
No momento da raiva, a gente pede. No auge da carência afetiva, a gente pede.
E pede coisas grandes: que alguém volte a nos amar, que tenhamos sucesso instantâneo, que a dieta dê certo.
Desejos legítimos, mas que, ao serem realizados, não garantirão um pingo de felicidade.
A volta de um amor pode nos impedir de amadurecer e resgatar a auto-estima.
O sucesso meteórico pode nos distanciar de princípios básicos. E os sacrifícios para ter um corpo delgado podem nos tornar irritadiços.
Os deuses entregam a mercadoria,
mas costumam cobrar uma gorjeta e tanto.
Todo pedido é uma transferência de poder. Você deseja que alguém, ou algo, uma entidade cósmica qualquer, tome conta dos seus dias. Quer saber?
Não fique devendo
esse favor para os céus. Cancele a encomenda e meta você mesmo a mão na massa.
Seja mais legal com seus irmãos, tome banho de chuva, dê um beijo surpresa em quem
você ama, cuide dos seus dentes, aproveite sua juventude, viaje de trem, ande de bicicleta, responda os e-mails recebidos e passe horas dentro do mar.
Trate de fazer as pazes com o espelho, de se espreguiçar, de dizer bom-dia pró porteiro e de dançar sozinho no meio da sala.
Comece a correr atrás dos seus sonhos, a valorizar as coisas simples e a zelar pelo que só você tem: sua vida.
Aos deuses, peça apenas que não interfiram.