01/12/2025
O Brasil viu um jovem morrer dentro da jaula de leões. Eu vejo um sistema que falhou muito antes disso.
Essa história começa na infância de alguém que cresceu sem família, sem amparo, sem proteção, sem políticas públicas funcionando. Começa em instituições que deveriam garantir cuidado, mas entregam burocracia. Começa em direitos humanos que, no papel, são universais, mas que, na prática, viram privilégio de poucos.
Durante anos, esse jovem circulou por CAPS, Conselho Tutelar, medidas socioeducativas, medicações, fragmentos de cuidado. Não era “caso difícil”. Era caso de abandono crônico. E abandono também mata.
Quando o Estado falha, ele não falha sozinho: ele fabrica trajetórias inteiras de sofrimento que depois são julgadas pela sociedade com a frieza de quem só vê o ato final e nunca o caminho que levou até ali.
Responsabilidade individual? Difícil falar disso quando o básico identidade, acesso, proteção, pertencimento nunca existiu. É incoerente cobrar autonomia de quem mal conseguiu sobreviver ao abandono.
A morte desse jovem não é exceção. É alerta. É o tipo de tragédia que revela aquilo que preferimos não encarar: políticas públicas que funcionam melhor nos relatórios do que na vida real; uma rede de apoio que se esfarela nas pontas; e um país que terceiriza culpa, mas não garante direitos.
Saúde mental é responsabilidade coletiva.
E tragédias evitáveis dizem mais sobre o país do que sobre quem nelas se perde.
A pergunta para nós, como sociedade, não é sobre a última cena.
É sobre tudo o que permitiu que ela acontecesse.
E é aqui que a discussão precisa começar.
————-