03/04/2026
Existe um silêncio diferente que chega quarenta dias depois do Carnaval.
Depois do excesso, do riso alto, da fuga — vem a pausa.
E essa pausa, para muitos, se chama Sexta-feira Santa.
Mas, antes de ser apenas um marco religioso, ela carrega uma palavra que nos atravessa:
paixão.
E paixão, na sua raiz mais antiga — pathos — não fala de amor romântico.
Fala de sentir profundamente, especialmente o que dói.
Fala de sofrimento. De entrega. De atravessamento.
Na perspectiva das terapias integrativas, esse momento é quase um convite simbólico:
o que em você ainda precisa ser sentido, ao invés de evitado?
Porque a gente aprende cedo a anestesiar.
Corre pro prazer, pro excesso, pro barulho — como no Carnaval interno que criamos para não encarar nossas próprias dores.
Mas o corpo… ele não esquece.
A emoção não sentida não desaparece — ela se reorganiza em forma de tensão, cansaço, ansiedade, sintomas.
A “paixão”, nesse sentido, não é castigo.
É processo.
Assim como a narrativa da crucificação não é apenas sobre morte, mas sobre entrega, sobre um atravessar inevitável — dentro de nós também existem pequenas crucificações silenciosas:
momentos em que precisamos parar de resistir e sentir o que é.
Na terapia integrativa, esse é um dos pontos mais profundos de cura:
quando você deixa de lutar contra o que sente e começa a escutar.
É no sentir consciente que a energia volta a fluir.
É no acolhimento da dor que o corpo relaxa.
É no reconhecimento da própria vulnerabilidade que nasce uma nova força — mais real, mais íntegra, menos performática.
Talvez, então, a Sexta-feira da Paixão não seja apenas sobre lembrar uma dor histórica.
Mas sobre reconhecer as nossas.
Não para se prender a elas.
Mas para atravessá-las com presença.
Porque toda paixão, quando vivida com consciência, deixa de ser apenas sofrimento…
e se transforma em caminho.
E talvez a pergunta que fique seja simples, mas profundamente honesta:
o que em você pede para ser sentido hoje, ao invés de ser evitado?