21/01/2026
Quando a dor e o sofrimento de gerações encontram espaço para elaboração, eles deixam de ser apenas ferida e se transformam em movimento, força, crescimento e sabor.
Foi isso que conheci hoje na comunidade quilombola . Um encontro que perpassa o corpo, a história e a alma — e que se expressa também num café da manhã preparado pelas mulheres do quilombo, cheio de afeto, memória e identidade.
Meu marido conheceu o trabalho dessas mulheres na feira, onde vendiam pães e, com orgulho, contavam sobre o café da manhã que promovem na comunidade, mediante agendamento. Hoje foi o dia de atravessarmos esse convite e conhecer o território. E foi profundamente surpreendente.
Fomos recebidos por uma história que emociona e por uma mesa repleta de iguarias feitas pelas mãos e saberes dessas mulheres: pães, bolos, cuscuz, preparos de milho e de mandioca (alguns que eu nem conhecia), geleias variadas e sucos de frutas. Tudo delicioso — mas, sobretudo, carregado de sentido.
Do ponto de vista familiar sistêmico, é impossível não reconhecer ali marcas profundas da discriminação, da subjugação e das injustiças vividas ao longo de séculos pelo povo negro. Mas também é impossível não enxergar algo ainda mais potente: mulheres que, ao se reunirem, transformam heranças de dor e violência transgeracional em coragem, força, determinação e conquistas coletivas.
Como alguém que ama histórias de famílias, observar padrões e legados, foi emocionante testemunhar a herança de luta, resistência e resiliência do povo negro se atualizando no presente — não apenas como memória de sofrimento, mas como identidade viva, criativa e transformadora.
Hoje, essas mulheres seguem unindo forças com as novas gerações — filhas e netas — e, juntas, utilizam a tecnologia para divulgar, fortalecer e aprimorar o trabalho. Um movimento que honra o passado, sustenta o presente e abre caminhos mais dignos para o futuro.
É sobre ancestralidade viva.
É sobre reparação em movimento.
É sobre quando o coletivo cura o que a história tentou silenciar.